ENTRE OS MUROS DA ESCOLA:


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Original: Entre les murs
País: França
Direção: Laurent Cantet
Elenco: François Bégaudeau, Laura Baquela, Nassim Amrabt, Cherif Bounaïdja Rachedi, Juliette Demaille, Damien Gomes, Arthur Fogel, Dalla Doucoure
Duração: 128 min.
Estréia: 13/03/2009
Ano: 2008


Paternalismo iluminista


Autor: Cid Nader

Parece-me que começar dizendo que o título em português dado a esse filme, Entre os Muros da Escola (dirigido por Laurent Cantet), é importante, por conta da redução extrema que passa a ocorrer no conceito geral que vem implicitamente embutido no título original, a saber, “Entre les Murs” (entre os muros). Embutir na chamada em português a palavra “escola” reduz informalmente a discussão – para mim evidente - que se trava no trabalho (desde seu surgimento no formato de livro, inclusive), à problemática das complicações escolares, ou dos adolescentes, deslocando-a da amplidão sugerida nas sub-compreensões do tratamento do assunto: “colonizadores e colonizados”.

Já a idéia de criar quase que um núcleo único (senão o mais importante, de forma estupendamente desproporcional), a partir de um professor que leciona a língua francesa para alunos de diversas origens (principalmente africanas: mas há também extremo-asiáticos dentro da história), pode ser compreendida como a expressão da “continuidade colonizadora” sobre os colonizados que recorreram à matriz (a França) nos tempos atuais, bastante “bicudos”. Continuidade colonizadora, sempre dominante, desde os momentos das invasões; na sequencia, com as expropriações materiais, ideológicas e até religiosas; e agora, nesse porvir, com um acolhimento sim de multidões desesperadas, mas com restrições mantidas, tanto de forma material (por conta da ocupação de cargos e empregos em tempos em que a economia cada vez mais sufoca), como no modo de olhar por cima, e nas tentativas de fazê-las (as multidões) adequadas ao seu modo de viver e pensar.

Interessante como os franceses vêm até construindo uma base cinematográfica significativa (quantitativamente falando), ao tratar do assunto com uma certa regularidade. Evidente o quanto esses imigrados interferem nos países europeus que foram colônia em tempos áureos, e que sofrem com as invasões que ganharam força espetacular a partir dos anos 1980. Tanto interferem e “incomodam” que, percebe-se claramente, até no exemplo deste filme, ainda são relegados a guetos, fazendo com que mantenham suas tradições e birras eternas - não se pode dizer que estejam incorporados ao “corpo social” dessas nações (fato comum na França, na Inglaterra, Holanda, Alemanha, Bélgica...). Interessante como os franceses tocam no assunto mais amiúde do que outros (evocam para si o “domínio” pleno da execução de seu lema absolutamente cristão, apesar de professarem e praticarem como poucos o iluminismo – que deveria ser mundial, na realidade -: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”), tanto quanto interessante é perceber que (sob um olhar distante mais atento e frio – olhar que deveria ser executado por todos os que se interessam pelas obras e manifestações de lá com mais certeza e menos louvação gratuita e exageradamente francófila) tentam impor seus ideais, subliminarmente agindo, sempre e sempre, de forma paternalista (agem de modo superior, disfarçadamente).

Podendo parecer superficial, arrisco dizer que Entre os Muros da Escola foi o vencedor do Festival de Cannes (2007) justamente por fazer com que os franceses se sintam “superiores” ao exercerem seu humanismo. Diria que, mais do que a camada superficial que entrega um filme que na aparência condena seu próprio modo de ser (os professores agem de modo “francês” ante as diferenças óbvias de cultura que explodem a cada momento dentro da escola, e o filme trata de uma falsificada, manipulada, sub-compreensão que delataria raciocínios ainda colonizadores sobre as “fraquezas” inocentes de quem acorreu à pátria), lá no interior (nas verdadeiras camadas a serem escarafunchadas) é mantida uma aura de superioridade paternalista que sempre e quase sempre continua sendo exercida por eles. Senão: como comprar a idéia pela qual “eu me acuso” de ainda tentar dominar alguém (aqui com a dominação do ensinamento da língua), ao olhar culpadamente para o que ocorre com esses que surgiram da miséria criada nos tempos e atos de “eu colônia exploradora”, ditada (essa idéia) pelo meu olhar e meu modo de contar?

O que tem ocorrido nessas obras francesas é que por tentativas intensas de deixar ostensivamente nítidos os seus sentimentos de culpa, penso perceber a manipulação da pior espécie (muito pior do que aquelas que demonstram fragilidades conclusivas sobre os conceitos relacionados a essa troca de favores que na realidade só existe por sentimento de culpa; muito pior do que aquelas que até sejam capazes de concluir um filme, por exemplo, fazendo ver nesse tipo de imigrados um mal que mora ao lado, através de atos racistas ou excludentes – isso é se enxergar sem “pós-morais da história”) subvertendo a lógica da coisa, mas mantendo o resquício do olhar que “só elas podem lançar, porque só eles podem ‘te’ compreender e ‘se’ condenar – mesmo que finjam, por firulas estéticas, o contrário”. O tempo todo sinto nesse trabalho dirigido por Cantet o paternalismo que reside na alma iluminista francesa: cada estocada no próprio peito que o filme ostenta pelos atos contra a dignidade dos alunos imigrantes, sinto-a desferida por consentimento próprio, como um modo de “ilustrar” o que não deveria ser feito (tanto quanto sinto que jamais teria sido desferida sem que as regras do jogo – paternalismo chama-se isso - tivessem sido delineadas antes).

Como obra formalista também percebo um grande equívoco que parece ter emergido de momentos de cansaço ou pressa: o filme começa convincentemente forte com seu modelo copiando o modo de um documentário (não dá para negar agilidade de diálogos e convencimento pelas boas atuações ). Mas tal “imitação” sucumbe com o tempo, o trabalho passa a se desnudar como ficção, assumindo tal condição (sem deixar evidente que conta fatos de teor geral documental, ok), mantendo vícios técnicos intragáveis que somente tinham sua razão de ser quando se camuflava de “coisa real”: não consigo compreender a manutenção da câmera ágil e tremida – de enfoques rápidos e irregulares -, e dos cortes com teor feio e jornalístico por todo o tempo. No seu modo formalista, o filme acaba também por sucumbir à “imagem sincera”, metaforicamente falando, que o todo do trabalho quer vender.

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