GLÓRIA AO CINEASTA:


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Original: Kantoku-Banzai!
País: Japão
Direção: Takeshi Kitano
Elenco: Takeshi Kitano, Toru Emori, Kayoko Kishimoto, Anne Suzuki, Keiko Matsuzaka
Duração: 108 min.
Estréia: 06/03/2009
Ano: 2007


Um Kitano sarrista


Autor: Érico Fuks

Se andam falando que a cinefilia está em crise, pelo menos há pessoas de bom senso que sabem assumir essa condição com humildade e criatividade. O novo filme de Takeshi Kitano consegue a proeza de ao mesmo tempo reverenciar alguns ícones cinematográficos de seu país e do conjunto de seu trabalho, como também pisotear nisso tudo em busca do rumo ao novo. A cena inicial é um boneco de plástico sendo submetido a uma tomografia para detectar alguma lesão cerebral. Nada mais auto-referente. O personagem-bolha, produto de um sistema econômico industrializado, vestido de uniforme azul com o logotipo de sua própria produtora, é a representação farsesca de si mesmo. Em seguida uma voz em off, onipresente, onisciente, onipotente e onilariante, conduz a busca inútil de Kitano por um gênero cinematográfico. Nessa procura pelo ideal, Ozu é citado como o auge do impossível; depois dele, nada poderá ser melhor. Ainda assim, os rascunhos cênicos daquilo tudo que o diretor já fez aparecem em tom de autoparódia. Matança de gangsters se intercala com o bucolismo auto-reflexivo imoto característico dessa figura carismática.

Nesse amontoado de gags simbolizando a perda de valores, sobra espaço para estilos nunca antes desenvolvidos em sua trajetória profissional, como o tão em voga terror cabeludo quanto as lutas voadoras de espadas mais do que exploradas pelos seus concorrentes mais próximos. Já que a perfeição é algo utópico, então apela-se ao vale-tudo. Até mesmo os efeitos especiais cinqüentistas precários de foguetes espaciais, algo na linha de National Kid. O mestre Kitano tem consciência de que pirou na batatinha, e usa essa premissa para atingir o máximo de sua liberdade artística. A confusão entre o personagem em carne e osso e sua representação dura e falconesca é proposital. Dá-se a entender que também funciona como uma crítica ao pós-Modernismo, onde basta copiar um pouco de tudo para ser considerado vanguarda. Kitano cutuca a falta de caminhos profissionais com seu niilismo brincalhão. Que esse autotributo glorioso ao cineasta não dá pra se encaixar em nenhum gênero prévio de sua filmografia, isso está evidente. A questão mais intrigante é saber se essa compilação sarrista dá pra se encaixar em alguma coisa, qualquer que seja.

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