VITUS:


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Original: Vitus
País: Suiça
Direção: Fredi M. Murer
Elenco: Fabrizio Borsani, Bruno Ganz, Teo Gheorghiu, Julika Jenkins, Urs Jucker, Kristina Lykowa, Tamara Scarpellini.
Duração: 100 min.
Estréia: 06/03/2009
Ano: 2006


Um filme suiço


Autor: Cid Nader

Se "Vitus" se passasse nos dias de hoje – e não em 2005 (realizado em 2006) –, ao menos cairia numa contradição quanto às vantagens e benesses que o sistema econômico mundial, capitalizado desde a globalização pela priorização das aplicações em Bolsas de Valores, em detrimento do capital oriundo de trabalho regular e de empresas com família e história como sustentáculo. Num determinado momento, o menino prodígio que dá nome ao filme – com seis anos, interpretado por Fabrizio Borsani (de olhar curioso e beleza infantil das mais arrebatadoras), e com doze, pelo "virtuose" Teo Gheorghiu (ator contido e corretíssimo, escolhido por justamente ser um fenômeno dos pianos – na realidade ele tem catorze anos, o que não tira o assombro quando dedilha impecavelmente peças clássicas e complexas) – resolve provar que a maneira mais fácil de ganhar dinheiro é sabendo "jogar" na Bolsa, e a partir daí, o filme dá uma guinada fantasiosa rumo às facilidades do mundo com grana.

Mas, em se pensando no trabalho como um todo, ajuntando as partes e as intenções, as técnicas utilizadas, o enredo, as atuações, o que o diretor Fred M Murer conseguiu, foi um típico filme dentro das possibilidades do que a cinematografia suíça poderia oferecer nos tempos atuais: uma coisa leve, descompromissada, asséptica, mas sem nada a ficar marcado, sem nada mais relevante, sem ousadia, sem erros. Algo de ruim acontece quando uma obra faz com que o espectador saia leve demais do cinema: o que quero dizer é que se um filme não mexe de maneira um pouco mais "abrasiva", digamos assim, com o espectador, se o que passou durante o tempo todo não motivou remexidas na cadeira (de prazer mais ousado, ou por indignação por ser um "filme errado") mais amiúde, o trabalho que vi não me interessa como obra a ser considerada. Há uma evidente comodismo por parte do diretor Murer, que na ânsia de entregar um produto bem esquematizado, quadradinho, com atuações boas e correção na edição, esqueceu-se (talvez não saiba, ou não compactue com isso, na realidade) de que na arte sobreviverão os diferentes, os que tentam e arriscam, até os que reproduzem o cotidiano sim e tentem agradar com calmarias, vá lá, mas que de algum modo saibam que estão lidando com o outro lado da vida, com a não respiração, com a não necessidade obrigatória de respirar para viver, com a não humanidade comum do dia-a-dia: lidar com a arte exige trafegar por outras vias, por outros caminhos, distanciar-se da "verdade".

Falar que Bruno Ganz está bem no filme – muito bem -, é chover no molhado; dizer que o já veterano ator contracena com uma naturalidade evidentemente adquirida com o passar dos anos (logicamente que se percebendo isso num ator de verdade como ele), realmante acaba depondo desfavoravelmente ao rescaldo que a película deixa em nossas lembranças e percepções. Se se tem um Bruno Ganz à mão, dois atorzinhos que mandam bem, também, porque ser tão "suiçamente" limpo, acomodado, plácido, sem "outras intenções"? Há alguns riscos sim, mas são tão calculados que ficarão perdidos em algum outro lugar que não a memória – não dá para falar mal da execução final junto a uma orquestra, como não dá pra questionar a qualidade na captação das imagens que iniciam o filme e dão o mote final a ele, por exemplo. "Vitus", o filme, seria um belo caderno decorado em escola infantil em um país de primeiríssimo mundo: mas não é um filme a ser considerado no primeiríssimo mundo do cinema, ou uma obra a ser pendurada na parede de um grande museu.

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