O MENINO DA PORTEIRA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Jeremias Moreira
Elenco: Daniel, José de Abreu, Vanessa Giácomo.
Duração: 95 min.
Estréia: 06/03/2009
Ano: 2009


Produto, reciclado, de nossos tempos


Autor: Cid Nader

O que fica mais evidente vendo esse trabalho como fruto de uma refilmagem e sabendo da curiosidade maior de ter sido feita pelo mesmo diretor, é que os quesitos moldados pelo poder de uma grana muito mais forte investida nessa segunda vez (fotografia, edição, captação de som, cenografia) ostentam de modo evidente e agressivo a diferença entre um irmão pobre e um irmão rico (oriundos da mesma gene, talvez gêmeos, separados após crescidos, o que mantém uma singeleza – senão simplicidade extrema – nas idéias, mas com, no caso atual, roupa e aparência exterior mais “metida” e glamurosa). O fato desse novo Menino da Porteira ser mais apresentável para um público que se deixa enganar por estética mais aprimorada, é virtude? É defeito?

Para tentar responder algumas questões, que são as que mais estimularão mentes (juntamente com a que interrogará sobre a performance do cantor sertanejo, Daniel, no papel do boiadeiro Diogo – interrogação que deverá ainda render sub-questionamentos na tentativa de comparar o a atuação atual à do protagonista da filmagem de 1977, Sergio Reis), creio ser importante tentar deixar bem claro, já de cara, que a embalagem estética, a manipulação da técnica, são frutos de um cinema de butique realizado atualmente, nos padrões homogeneizados de produções que tentam alcançar um público de cinema que se preocupa tanto com a aparência superficial do que vê, tanto quanto com a pipoca e o refrigerante que deverão ser companhias inesquecíveis durante a sessão.

Cinema de butique que, esteticamente, tenta vender imagens com iluminação certeira (sem sombras; sem intenções de vender idéias que tenham de ser “capturadas” pelo olhar através de um certo esforço – oferecendo tudo como em fotografias caretas de férias, em local paradisíaco); intromete seus personagens em rincões devidamente estigmatizados à personalidade cada grupo; faz da música (num filme de alma musical, provavelmente surgido por conta de música) aparelho condutor, elemento de liga entre sequências, com músicas cantadas pela voz de um cantor que tende a fazer de todas oriundas de um mesmo local (com o mesmo tom, de voz aveludada, a mesma batida na viola, fazendo com que alguns achados caipiras de verdade se tornem objetos sertanejos, neo-caipiras). Cinema de butique que, tecnicamente, utiliza gruas e trilhos aos montes (e já se sabe o estilo de filme que resulta tal prática); com tomadas abrangendo o horizonte de forma a fazê-lo moldura, não partícula viva do trabalho); mas de edição boa, no geral, para compensar um pouco.

No filme anterior, o ideal humano contido já apontava para uma simplificação, com jeito de que a idéia essencial brotava da alma caipira idealizada como a do povo extremamente simples, meio jeca, sem nuances a mais do que preconizara Monteiro Lobato ao criar o tipo Jeca Tatu – quando o ideal seria enxergar a possibilidade de se contar uma história simples, com um olhar, com um desvio de compreensão mais à Cornélio Pires – que entendeu a simplicidade da alma caipira, mas soube perceber que exteriorizá-la através de padrões definidos e maniqueístas seria ultrajante e mesquinho, retratando-a com uma riqueza interna que deveria ter sido o mote adotado pelo diretor no momento de re-retratá-la. Por conta da evidente intenção de entregar um produto supostamente mais belo ao olhar (a tal estética fácil captada com a força de um dinheiro a mais) a simplificação anterior tornou personagens mais fracos: no novo filme, diferencia-se o bom do mal pelo modo de olhar, de andar, de respirar, de espiar, de transpirar (com exceção de um único personagem – que terá o destino novelesco que novelas emprestam a esses que muda de idéia). No novo filme, a soturnidade de Sergio Reis é substituída por um Daniel que fraqueja nos momentos de expressar-se (oral, ou expressionalmente): as falas desse, tem dramaticidade similar à que se exigiria em um filme de Xuxa (com quem já trabalhou, aliás); suas expressões poderiam ser resumida a uma só (indefinível, diria): com os dentes à mostra e sem os dentes à mostra.

O fato de ser um filme que se oferece fácil para o público – pelo aspecto da estética fútil, do esquematismo dos personagens, da homogenização das músicas, e pela falta de nuances de expressão de Daniel -, não impede o novo O Menino da Porteira de entregar alguns bons achados: o momento em que é executada a clássica “Disparada” enquanto cenas ocorrem como ilustração é bem dinâmico e bom: num outro instante em que se entoa uma cantilena/oração/rogação a Santo Antônio, enquanto os pequenos criadores se ajuntam para reconstruir uma casa destruída, o diretor consegue criar quase que uma pequena jóia de delicadeza e fé (o momento mais próximo do que Cornélio Pires pensava de seu povo); ou um outro, em que um verdadeiro violeiro toma conta do espaço e demonstra o quão rica pode ser a cultura desse nosso interior; a Filoca, de Rosi Campos, é quase impagável. O filme deve agradar uma boa parcela de público, não gosto muito, mas não diria para fugirem definitivamente.

P.S.: saudades de um caubói como Clint Eastwood.
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