WATCHMEN - O FILME:


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Original: Watchmen
País: EUA
Direção: Zack Snyder
Elenco: Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Billy Crudup, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Matthew Goode, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie, Laura Mennell, Robert Wisden
Duração: 156 min
Estréia: 06/03/2009
Ano: 2009


Acima da média


Autor: Fernando Oriente

“Watchmen”, de Zack Snyder, é uma das mais felizes adaptações de quadrinhos que o cinemão hollywoodiano já produziu. Embora seja algo considerável, a relativa qualidade do longa não deve ser supervalorizada. Antes de tudo, devemos constatar que a grande maioria dos personagens e histórias do universo das HQs que foram transportados para o cinema resultaram em obras que vão de razoáveis a medíocres. Exceção feita, principalmente, aos dois Batmans de Tim Burton (em especial “Batman – o Retorno”, um dos melhores filmes americanos dos anos 90). Dentro desse universo, o filme de Snyder é bem acima da média e consegue atingir momentos de dramaturgia relativamente mais sofisticados que seus pares, além de algumas boas cenas de ação.

Dramaturgia aqui deve ser encarada de uma forma mais livre, distante daquela que pensamos em termos de um cinema mais qualitativo. É boa dramaturgia dentro de duas próprias limitações. Não existe no longa uma construção sólida de personagens e muito menos a possibilidade de se encontrar situações que não sejam calcadas na caricatura, embora essa caricaturização seja uma proposta coerente dentro do universo artificialista que o diretor usa para erguer seu filme. Zack Snyder já havia mostrado certo talento em filmes que dirigiu anteriormente como “Madrugada dos Mortos” (um sub-Romero até certo ponto interessante) e no bem sucedido “300” (em que as belas imagens e a direção e a montagem criativas para as sequencias de combate convivem lado a lado com a temática fascistóide de Frank Miller).

Em “Watchmen”, vemos o virtuosismo imagético usado por Snyder em “300” dividir espaço com diversas passagens em que diálogos, situações de tensão e momentos de espera dominam as cenas. Existe no próprio texto de Alan Moore (o mítico escritor de HQs que assina o texto original de “Watchmen”) uma preocupação com o aspecto humano dos personagens. A história dos anti-heróis mascarados que combatem o crime como vigilantes é, por si só, uma desconstrução da herança do herói na sociedade ocidental; herança essa que está na gênese dos principais personagens em quadrinhos. Esse fator, aliado às boas resoluções visuais das cenas de ação, estão no centro do interesse que o filme pode despertar.

Percebe-se ao longo das duas horas e quarenta minutos do filme que a principal preocupação de Snyder é trabalhar os climas e o estado de espírito atormentado dos protagonistas. São tipos frágeis, pessoas ordinárias fantasiadas de herói que, em meio a uma desordem natural do mundo, resolvem fazer justiça com as próprias mãos. No fundo, eles agem para si mesmos. Combater o crime é um meio para que tenham algo de mais interessante para fazer dentro de suas vidinhas bestas. O único personagem que realmente tem poderes especiais, o Doutor Manhattan, é o tipo mais chato da história, contaminado por uma pretensão metafísica que não se sustenta. As cenas dele em Marte, seus diálogos com a sensual Laurie Jupiter, são passagens ocas, de uma verborragia cafona que não leva a lugar algum, além de diluir o clima de “mediocridade existencial” dos outros personagens.

Os personagens são o ponto alto do filme. Visualmente eles são tipos interessantes. Pessoas com aspecto comum, que vivem sua rotina da forma mais banal possível, em ambientes deteriorados e distantes de qualquer estilo de vida glamoroso. Usam óculos de grau que sempre precisam ser limpos, moram em pequenos apartamentos sujos e, com exceção da bela Laurie, não têm o perfil de símbolos sexuais. “Watchmen” pode ser visto como um esforço de destruição do lado cool do super-herói. Mas, do processo de desconstrução, surge um novo aspecto dessa postura cool de ser. Ao se afastar tanto de estereótipos, “Watchmen” cria novas facetas que dão um ar atraente para seus personagens. Visualmente, os vigilantes atormentados fascinam e provocam empatia do espectador, por mais que representem características humanas não muito salutares (como o mercenário reaça Comediante e o psicótico mascarado Rorschach).

Uma cena serve como síntese do que é e do que tenta ser “Watchmen”. Nela vemos Comediante, deprimido e frágil, chorando sentado na cama de um de seus mais importantes rivais. Esse vilão é um velho solitário, que mora em uma espelunca e tem em cima de seu criado-mudo, ao lado do pobre leito em que repousa, uma série de frascos de remédio. Esse clima melancólico, bem traduzido nas imagens da cena, faz parte de um mundo em que a paranóia da sociedade em combater o que considera errado e a eterna necessidade do homem comum em dividir tudo entre o bem e o mal são características intrínsecas. “Watchmen” tenta (mesmo que de forma limitada) criticar essas certezas; procura mostrar as semelhanças entre as boas e as más intenções. As limitações do longa ecoam o “anarquismo” moralista e conservador de Alan Moore, que serve como um bom espelho do paradoxo de se tentar desconstruir algo, mas ficar na metade do caminho.

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