QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?:


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Original: Slumdog Millionaire
País: Reino Unido/EUA
Direção: Danny Boyle
Elenco: Dev Patel, Irrfan Khan, Anil Kapoor, Madhur Mittal, Freida Pinto
Duração: 120 min.
Estréia: 06/03/2009
Ano: 2008


Fraco, mas não horrível


Autor: Cid Nader

Que Danny Boyle é um diretor estranho creio que não haja dúvidas sobre. Diretor que iniciou a carreira de forma quase estrondosa pela inventividade e “desvios” bastante interessantes criados em seus dois primeiros filmes, “Cova Rasa” (1994) e “Traisnpoting – Sem Limites” (1996), esperava-se que uma sequência alternativa o fizesse ganhar status de realizador autoral (esse seu início apontou para um modo de confecção bastante particular, onde vislumbrava-se um contar das “modernidades” britânicas com o olhar interno de quem as vivia e as conhecia como alguém que conhece seu quintal, o que resultava que, ao contar isso ao mundo, sinceridade e crueza se fizessem parceiras bastante interessantes, impregnando esse seu início com traços de quem se valeria disso como uma de suas assinaturas daí para a frente – havia o elemento música utilizada, também, mas esse parece que não foi totalmente abandonado na estrada). Mas aí o porvir das outras obras desbancou a suposição de autoralidade fixada, com filmes que não repetiam as principais fórmulas dos dois primeiros, mas que também não se repetiram (de maneira mais evidente, ao menos) entre um e outro que ia sendo criado – e falar mal de um “A Praia” (2000), ou de “Sunshine – Alerta Solar” (2007), me parece extrapolar uma visão definitiva (são filmes que mudam a cada momento em minhas avaliações) sobre a carreira do diretor, para, junto com a impressão de um rumo que iria ser seguido após seus dois primeiros trabalhos, fazer-me pensá-lo como um “estranho” (como disse lá no início).

Fazendo mais fé no meu conceito sobre ele, Boyle desembarcou na Índia para realizar seu filme que talvez seja o que atingirá a maior e mais diversificada platéia de sua carreira (e me desmentem as premiações de melhor trabalho dadas pelo “Globo de Ouro” e pelo “Oscar”), e criando também com Quem Quer Ser um Milionário a maior gama de opiniões negativas vindas de uma parcela da crítica – tal opinião negativa, emitida de modo muito mais contundente do que qualquer outro filme seu anteriormente. Na realidade, olhando esse novo trabalho transcontinental dele, as primeiras impressões levam a detestá-lo quase que com ojeriza. O filme intromete-se – justamente por esse aspecto, o de estar num país de miséria evidente, que convive de modo contrastante com outros setores que fazem percebê-lo como um dos frutos mais reconhecíveis da Globalização – numa situação de observação das mil possibilidades criadas pelo visual e pelo modo de vida em uma “grande favela” local, criando a facilidade de se retratar tudo isso com lentes desonestas, que glamurizam a miséria, e arrancam com filtros e afins imagens de choque e beleza.

Essa facilidade à mão não é de modo algum descartada, e Boyle embarca firmemente no que é apelidado por aí como “cosmética da miséria”, “estética da fome”, vice-e-versa ou coisa que o valha. O filme se aproveita de modo evidente da possibilidade de angariar o público pelo que resulta de imagens obtidas através de ângulos e lentes ideais, e também se aproveita do vigor e ludicidade infantil para abrir seus primeiros trajetos ante a avaliação pública. Mas ele tem mais coisas para enervarem quem venha a considerá-lo como obra ruim: o formato da narrativa é dos mais óbvios possíveis, e a acomodação se faz presente quando se passa a “desenhar” na tela cada situação oriunda das questões endereçadas a Jamal Malik no programa de perguntas e respostas, “Quem Quer Ser um Milionário”, com um flash-back justificador das razões de o jovem saber a resposta certa. Essa acomodação toma quase que o tempo integral da película, servindo como uma fórmula narrativa pouco inspirada – até infantil. Não há outras nuances ou tentativas de desvios em busca de diversificação na fórmula, e o filme vai ganhando – além da má impressão já oferecida pelo estilo de fotografar as situações – a antipatia de quem queira ver algo além do que seria facilmente percebido numa novela, no conforto de um sofá.

Imagens estouradas, câmeras tortas, luz difusa, atuações quase maniqueístas – há um pouco mais de sinceridade autêntica nas crianças -, e recortes que servem para tentar dinamizar um esquema que é pobre pela opção narrativa do flash-back simplista. A vontade em alguns momentos era a de sair indignado da sala – com a mesma indignação que acometeu alguns outros até o final -, mas próximo do final, alguns pontos acabam por salvar o filme do desastre total: é emocionante a alternância das imagens do povo nas ruas e do rapaz no auditório quando da última questão lançada (a impressão é de que a “sinceridade” e razão de um povo de alma diferenciada foi captada na sua realidade); as músicas cantadas em “turma” fazem ver algo do Danny Boyle do início, com uma qualidade bastante interessante e, principalmente, de teor “recordatório” bom; e a belíssima homenagem ao cinema de Bolllywood (não confundir com Hollywood, por favor) desde o final do filme e durante os créditos finais, principalmente. Um trabalho que é fraco, mas que escapa do desastre total por algumas poucas, mas dignas, razões.

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