CRASH - NO LIMITE:


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Original: Crash
País: EUA/Alemanha
Direção: Paul Haggis
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser,
Duração: 107 min
Estréia: 27/10/2005
Ano: 2004


Esquematismo de “Crash” esvazia discussão


Autor: Laura Cánepa

“Crash – No Limite” (EUA, 2004) foi um dos filmes mais aguardados deste ano, em grande parte por ter como diretor, co-roteirista e co-produtor o premiado Paul Haggis, autor do roteiro de “Menina de Ouro”, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2005. Embora seja estreante como diretor de cinema, Haggis coleciona prêmios da crítica norte-americana por seu trabalho em televisão, como o que desenvolveu quando foi roteirista e diretor da série Family Law no final da década de 1990.

Esse primeiro exercício de Haggis numa grande produção cinematográfica não deixa muitas dúvidas a respeito de suas inquietações humanas e artísticas (o diretor é figura bastante conhecida entre os ativistas pelos direitos humanos nos Estados Unidos). Afinal, “Crash” propõe uma espécie de estudo sociológico sobre o preconceito racial, traçando um panorama das diferentes etnias que convivem na cidade de Los Angeles, e tentando mostrar que, quando se sentem sob pressão, todos os cidadãos se rendem à agressividade e ao racismo. A partir desse pretexto, o diretor extrai pequenas lições das experiências vividas por seus personagens, e os submete, ao longo da trama, a diversos testes morais – dois quais quase ninguém sai intacto.

No quesito direção, Haggis se saiu bastante bem em Crash. O filme é visualmente belo, narra a sua história multiplot de maneira muito competente, extrai atuações corretas do elenco multiestelar (no qual se destacam Don Cheadle, Matt Dillon, Brandon Fraser e Sandra Bullock). Mas o curioso é que, mesmo somadas a competência técnica e as boas intenções, o filme não funciona. E, por incrível que pareça no caso de Paul Haggis, isso se deve ao roteiro.

A primeira fala do filme, dita pelo policial Grahan Waters (Don Cheadle), promete “amarrar” toda a história para o espectador, oferecendo-lhe uma suposta chave de leitura. Segundo o detetive interpretado por Cheadle, “em L.A, ninguém te toca, estamos sempre atrás de vidros e metais. Acho que sentimos tanta falta do toque que colidimos uns com os outros só para sentirmos alguma coisa”.

Deste momento em diante, e ao longo de quase duas horas de projeção, dezenas de personagens colidirão, literalmente, com seus concidadãos, tirando daí valiosas descobertas sobre a humanidade – e muitos lugares comuns. De policiais violentos a comerciantes muçulmanos desconfiados, todos descobrirão que, afinal de contas, têm pouco controle sobre suas próprias vidas, e que a culpa que atribuem aos outros é, na maioria das vezes, uma estratégia para negar suas próprias pequenas (ou grandes) tragédias.

É grande a previsibilidade dos conflitos aos quais os personagens de Haggis são submetidos na metrópole, assim como são previsíveis suas reações. Além disso, suas peripécias são acompanhadas por falsas surpresas (do tipo “uau, o bandido não estava tirando a arma no bolso, e sim um santinho!”) e por artifícios primários de roteiro (como segredos descobertos em latas de lixo e personagens acuados que não são capazes de explicar os mal-entendidos de que são vítimas). Ao longo do filme, sobram pessoas bacanas que se descobrem agressivas quando, por exemplo, sofrem um assalto, ou dondocas que percebem a superficialidade de suas vidas depois de violentos acidentes; há também negros assaltantes, muçulmanos proto-terroristas, chineses que fazem tráfico de seres humanos e latino-americanos servis e bem-comportados.

Apesar do desfile de clichês, não se trata de uma obra qualquer, pelo menos em se tratando do cinema norte-americano contemporâneo, cada vez mais voltado a produções adolescentes e sem qualquer compromisso com a discussão política em curso no mundo e em seu país. No entanto, para um filme que parte de uma premissa tão forte e inicia com palavras tão instigantes, “Crash” deixa muito a desejar – basta compará-lo a filmes de diretores como John Sayles (de “A Estrela Solitária”) e Robert Altman (de “Short Cuts – Cenas da Vida”), também interessados em estudos de comunidades por meio da descrição das trajetórias múltiplas. E nem precisamos ir tão longe: aqui mesmo, no Brasil, Sérgio Bianchi (de “Cronicamente Inviável”) já provou que é possível colocar cidadãos comuns em rota de colisão e tirar dali resultados muito mais ricos do que Haggis consegue em “Crash”.
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