3 MACACOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Üç Maymun/Three Monkeys
País: Turquia/França/Itália
Direção: Nuri Bilge Ceylan
Elenco: Hatice Aslan, Ahmet Rifat, Yavuz Bingöl, Ercan Kesal
Duração: 109 min.
Estréia: 27/02/2009
Ano: 2008


A consolidação do cinema de embuste de Nuri Ceylan


Autor: Fernando Oriente

De tempos em tempos o cinema recebe com entusiasmo um novo cineasta que, geralmente vindo de um país fora do eixo Europa Ocidental-EUA-Japão, é saudado como autoral e criativo, convidado para importantes festivais (em que ganha prêmios) e acaba arrebatando um fiel grupo de seguidores dentro da crítica e da cinefilia. Esse saudável acontecimento já revelou grandes cineastas que, com o passar dos anos, solidificam suas obras e passam a ser referência de qualidade. Só que, muitas vezes, a carência do mundo pós-moderno por novos autores provoca o reconhecimento precoce de diretores que reciclam elementos estéticos e conceitos narrativos, elaboram audaciosas propostas temáticas e, no final, mostram-se incapazes de produzir um filme que não seja uma colagem de perfumarias e um exercício narcisista vazio. Estes são os embusteiros, os diretores que fazem da falácia seu principal meio de expressão.

O turco Nuri Bilge Ceylan é um dos principais representantes desse subgênero de cinema. Seu novo longa, “3 Macacos”, é um perfeito exemplo do cinema de embuste. Absurdamente premiado como melhor diretor no Festival de Cannes de 2008, Ceylan trabalha em cima de recursos estéticos que, nas mãos de grandes cineastas, já foram matéria-prima para grandes obras. Mas, ao serem usados sem nenhuma razão de ser pelo diretor turco, resultam em um arremedo pretensioso de referências pseudo-sofisticas que não sustentam a grande insignificância que é esse “3 Macacos”. As propostas ocas do filme dialogam apenas com o umbigo de seu diretor, incapaz de imprimir o menor traço de honestidade cinematográfica.

“ Macacos” é um amontoado de simbolismos rasos e óbvios em que os conflitos estéreis são constantemente maquiados por perfumarias formalistas. As pedantes abstrações conceituais de Ceylan são desenvolvidas de maneira pretensiosa e sem nenhum embasamento. O diretor, com uma frieza calculada e artificialista, não tem coragem nem capacidade de intensificar as já frágeis prerrogativas dramáticas. Todas as tentativas de se inserir situações de tensão resultam em mais dissimulações dentro do nada que é o longa. A incomunicabilidade no cinema de Ceylan é ensaiada, caricata e forçada.

O tratamento dos personagens é outro problema sério, o vazio desses tipos é o vazio do próprio cinema de Ceylan. O diretor tenta maquiar seus julgamentos, mas é incapaz de não deixar escapar uma crítica a esses personagens, na qual fica nítida sua retórica moral conservadora, que vai do maniqueísmo ao machismo. Um terrível trauma no passado, que serve como elemento catalisador para a crise da família de protagonistas, é uma forma hipócrita de se tentar potencializar os dramas e sofrimentos daqueles tipos. É uma justificação cheia de psicologismos baratos que não acrescenta coisa alguma, apenas dilui o potencial dos conflitos Uma constatação óbvia no filme é o esforço inútil do cineasta em ser autoral. De toda essa “luta artística” de Ceylan quem sai como vítima é a platéia, que é tratada o tempo todo como meros espectadores de seu pseudo-virtuosismo, impossibilitados de dialogar e de se envolverem com o que vêm na tela. O pretensioso turco filma para se auto-afirmar, para tentar convencer a si mesmo que é talentoso.

Toda a parafernália visual que Ceylan adota no filme serve apenas para tentar disfarçar sua nulidade. Desde a decupagem mal concebida até os recursos radicais na fotografia (luz subexposta e excesso de filtros) acabam por “alienar” as imagens e tornam-se meros elementos de falsificação estética (especialidade do diretor). As muletas formais são tantas que o longa torna-se um exercício penoso de exibicionismo. O uso forçado de sons e ruídos diegéticos e as infelizes e óbvias metáfora chegam a serem constrangedores. O que dizer do vento que mexe uma faca sobre a mesa ou entra de forma brusca no quarto do casal? E as nuvens cinza que cobrem o céu em momentos de tensão?

Alguns chegaram a comparar Ceylan com Michelangelo Antonioni (?!!). O genial cineasta italiano trabalhava como poucos a densidade dos tempos mortos, era perfeito na decupagem e tirava o máximo de complexidade das texturas dos personagens e das situações. Seu legado único foi referência para grandes diretores surgidos no final da década de 80, como Tsai Ming-Liang e Ho Hsio Hsien, que radicalizaram algumas de suas propostas estéticas e acrescentaram seus próprios elementos para construir uma filmografia impressionante. O que Nuri Ceylan faz é retroceder e esvaziar, em meio a muita pretensão, todos esses recursos. Seu cinema embusteiro não leva a lugar algum.

Leia também:


Ceylan, maniqueísta, engana com sua estética vazia