AS TESTEMUNHAS:


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Original: Les témoins
País: França
Direção: André Téchiné
Elenco: Michel Blanc, Emmanuelle Béart, Sami Bouajila, Julie Depardieu
Duração: 112 min.
Estréia: 20/02/2009
Ano: 2007


Techiné e a força da narrativa


Autor: Fernando Oriente

“As Testemunhas”, de André Techiné, é um filme em que o poder da narrativa está no centro de tudo. Planos, montagem, mis-en-scene e os demais elementos da linguagem cinematográfica são os suportes para que Techiné desenvolva um longa visceral em que o espectador é mais do que um observador impassível; ele torna-se um cúmplice e também uma “testemunha” de tudo aquilo que vê na tela. O recorte de tempo de um ano na vida do grupo de personagens centrais e a complexidade dos acontecimentos em suas vidas são potencializados pela energia que o diretor tira da história que narra.

A força das situações é o núcleo da dramaturgia que Techiné usa para consolidar seu discurso. Os personagens não têm como se manterem impassíveis diante da velocidade de transformações que os acontecimentos provocam em seu meio. Eles tomam partidos, agem e suas ações são o motor do longa. O diretor extrai o máximo dos dramas e das experiências vividas por seus tipos e por meio desse processo constrói a solidez e a densidade da narrativa.

Todas as pessoas que vemos na tela carregam o peso de suas experiências vividas, são personagens de construção sólida, multifacetados e de texturas complexas. Não é necessário à Techiné entrar em particularidades nem explicitar o que ou de que modo eles são o que são. O seu agir, suas manifestações e suas reações a tudo aquilo que os cercam são mais do que suficientes para testemunharmos sua complexidade. A força deles vem de suas limitações, do caráter essencialmente humano de suas personalidades.

“As Testemunhas” é dividido em três partes. Em um primeiro momento, Techiné explora a liberdade de ação de seus personagens e certa inconsequência (positiva em primeira estância) em viver os prazeres e a consumação dos desejos de forma quase plena. São tipos ágeis, irrequietos e a velocidade da montagem e o trabalho de câmera contextualizam bem o ritmo de suas vidas. Na segunda parte a tragédia assume o primeiro plano. A velocidade na fruição do longa se mantém e até se potencializa, acompanhando a incerteza, o medo e a incapacidade de reação diante de uma nova realidade castradora das subjetividades libertárias; que embora limite o alcance das ações dos tipos, não os impedem de continuar agindo. Esse medo, que é como uma supressão do desejo, os impulsiona ainda mais no sentido de tornarem-se agentes do presente que os envolve. Na parte final, após o impacto da inevitável perda, as testemunhas que sobreviveram encontram-se vivas para seguir na ciranda cíclica da sucessão do tempo. O que viram, sentiram e fizeram são os alicerces do testemunho da história em construção. A história de indivíduos que sempre compõe a história da coletividade.

Não existe no longa a banalização das emoções encenadas, Techiné é direto, cru e visceral; não usa “muletas” sentimentalistas para amplificar os dramas. As situações “falam” por si. Os acontecimentos externos penetram o interior dos personagens. Mesmo sem a intenção explícita, eles têm suas condutas, suas referências e até seus gestos cotidianos alterados por esse forte elemento externo.

Essa narrativa poderosa de “As Testemunhas” é centrada no impacto que os eventos, os acontecimentos e suas consequências têm sobre a vida dos personagens. O vigor dos tipos é o centro de um cinema calcado no valor, no potencial e nas possibilidades dialéticas desses personagens. O poder de se contar uma história aglutinando os conflitos, a aproximação e o refluxo entre pessoas comuns (os agentes dessa história) é o elemento primordial do cinema que interessa a Techiné. O cineasta francês trabalha em cima de sensações e sentimentos reais; abomina a caricatura e o gestual falsificado.

André Techiné empresta seu olhar ansioso e inquieto para a câmera que, em constante movimento, registra a velocidade dos acontecimentos em planos ágeis unidos pela montagem vertiginosa de elipses bruscas. Todo esse ritmo não anula a intensidade das relações entre os personagens; a objetividade na construção das inter-relações é ponto forte no longa.

Techiné filma o homem e seu papel dentro do desenrolar da vida cotidiana. Filma o constante movimento da “aventura humana”. Da experiência de alguns, o diretor traça os paralelos entre a pequena e a grande história. Os eventos que atingem pessoas comuns são aqueles que vão deixar suas marcas na história da evolução do mundo. André Techiné transforma em prazer o ato de se assistir a um filme construído em cima da força da narrativa. Pelo menos para aquele espectador que ainda vê no cinema uma experiência totalizante e demasiadamente humana.

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