MILK - A VOZ DA IGUALDADE:


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Original: Milk
País: EUA
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Sean Penn, James Franco, Josh Brolin, Emile Hirsch, Diego Luna, Alison Pill, Victor Garber, Denis O'Hare, Lucas Graabel
Duração: 128 min.
Estréia: 20/02/2009
Ano: 2008


Gus Van Sant e seus climas


Autor: Cid Nader

Bastante comum ouvir comentários elogiosos ao diretor Gus Van Sant por conta do "clima estranho" que muitos percebem em seus filmes. Vale dizer que o diretor não é um criador de "climas estranhos" - melhor deixar tais estranhezas agirem por si só, em filmes de qualidade, através das obras dos Davids, Lynch e Cronemberg. O que ocorre em sua cinematografia, bastante importante, é que o diretor talvez seja o que mais consegue construir seus trabalhos com os elementos, ambiente físico, época, "aura", compondo fielmente suas funções dentro do contexto geral do que ele deseja ver narrado na tela. Portanto, quando se elogia ao extremo o potente e pseudo-lúdico "Paranoid Park" (2007), ou o reveladoramente cool "Elefante" (2003), ou ainda o estranhamente hipnótico "Gerry" (2002), deveria-se estar elogiando películas que conseguiram captar os climas de seus ambientes e a alma de seus personagens e de seus semelhantes (semelhantes que agem por atitudes unificadoras, provenientes de comportamentos em comum). Além do mais, nos casos mais recentes, coincidentemente (ou não), seus filmes têm retratado o mundo adolescente/juvenil, dentro de uma sociedade capitalista que "parece" estar dando tudo de bom, mas na realidade tem tomado, como troco, afetos e contatos extremamente necessários no momento de definição de mentes que estão se fechando definitivamente, e às "moleiras" que ainda teimam em sombrear (ainda fechando) os comportamentos semi-imberbes.

Milk – A Voz da Igualdade, visto por esse prisma, acaba fazendo perceber, na marra, aos mais variados modelos de pessoas com seus comportamentos "caretas", o quanto o mundo do homossexualismo está próximo de seu cotidiano. O tal "clima estranho" imaginado por alguns em outras realizações do diretor acaba recebendo nesta sua mais recente "acusações" de "cinema que concedeu e se rendeu ao comercial". Bobagem grande que, se refocada, desmontaria preconceitos e faria perceber que distâncias foram suprimidas, avanços foram concretizados, e o "absurdo" já não soa tão "absurdo". Milk – A Voz da Igualdade, visto pelo prisma lá do início do texto, é um legítimo rebento com assinatura inconfundível de um Gus Van Sant: para contar a história de Harvey Milk, lá nos idos dos anos 1970, e lá na cidade de São Francisco, soube, como sempre, imaginar e capturar a atmosfera do momento e local, e fez mais um trabalho que remete o espectador diretamente par adentro do mundo relatado.

A fotografia do filme – responsável na obra do diretor por uma parcela considerável dos climas (os tais climas estranhos) imprimidos às suas fitas – persegue e alcança o modelo do que era realizado na época: luz mais chapada – meio esbranquiçada – que acaba por "despontecializar" a força das cores, subtraindo possibilidades maiores de matizes diversificadas, o que emprestava um clima inconfundível aos filmes de então; os enfocamentos realizados a partir de um prisma que conforma imagens dentro de quadros "mais quadrados", mais à distância, criando perspectivas de reconhecimento de todo o entorno nas cenas (se vê mais paisagens e estruturas arquitetônicas, se vê mais céu), com os personagens "somente" fazendo parte, quase nunca como o foco principal ou único; zooms, ao invés de cortes na mesa de edição (na época usado em abundância, aqui, de modo mais contido, mas como algo reverencial); e toda uma reconstituição cenográfica e de vestuário competente o suficiente para ilustrar o obtido pelas lentes (ilustrar, sem oprimir, sem soterrar sob escandalosa precisão). Outra característica dos climas de "Van Sant", tem muito a ver com as opções musicais em seus filmes, e o clima setentista não é relegado a segundo plano dessa vez: valendo dizer que, novamente, com muita justeza e precisão na escolha e na quantidade de músicas utilizadas - o diretor é craque em capturar e recriar climas em seus filmes, e o fato de nunca abusar deles para agradar quem vê cinema como algo que retrata fidelidade artificial (lembrando, que há diretores que optam pela artificialidade como modo opção autoral – Baz Luhrman, por exemplo – e aí a história é outra) faz um diferencial pra lá de positivo a seu favor.

Outro fator bastante interessante na obra mais recente dele é perceber que suas ficções têm partido de fatos reais, de histórias que ocorreram. Então se cai em uma outra especialidade, característica dele, que ultrapassa a fineza dos climas bem remontados, para revelar a fineza de alguém que consegue relatar fatos de teor e valor documental, trazendo-os para dentro do "modelo ficção", mas fugindo da idéia de documentário ficcionalizado, ou da chatice que normalmente resulta de dramatizações de notícias reais. Os dados concretos e reais são lançados em algum momento desses trabalhos, mas não se impões como a verdade a ser ditada para imprimir mais "fé" ao que se filmou e editou. No caso deste filme, há até um algo a mais de informações escritas (que se fizeram necessárias pela distância histórica da situação e pela relevância a uma grande parte de seres humanos de interesse direto), mas as imagens reveladoras do momento, utilizadas (fotos e filmes antigos), casaram tão bem com a opção fotográfica adotada para as filmagens recentes, que por momentos não se consegue perceber o que é realidade antiga e o que é filmagem atual se passando na tela. O filme é um achado estético e formalista, mas também um achado raro nas interpretações e no modo como vai se revelando a história. Ouvi alguns comentários de que "seria acomodado e pouco ousado por retratar quem retratou"... O que se queria eram ações demonstrativas de mais afeto? Mais explicitação de ações amorosas? Creio que Gus Van Sant conseguiu escapar de uma espetaculização banal de ações, o que faria do filme "objeto aproveitador".

A sensibilidade e força na atuação de Sean Penn (Harvey Milk) só não impressiona mais porque se sabe da qualidade dele em outros instantes. O clima completado pelos coadjuvantes da história (história que conta um momento histórico) é bastante adequado e fluido dentro do modelo fílmico típico do diretor. Van Sant demonstra mais uma vez que sabe capturar muito das complexidades humanas, reinterpretando-as e transformando-as (com a ajuda indispensável da compreensão de confecção da arte) em mais um belíssimo filme.

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