O CASAMENTO DE RACHEL:


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Original: Rachel Getting Married
País: EUA
Direção: Jonathan Demme
Elenco: Anne Hathaway, Rosemarie DeWitt, Debra Winger
Duração: 114 min.
Estréia: 13/02/2009
Ano: 2008


Demme e Hathaway numa boa parceria


Autor: Marcelo Lyra

Os fãs que a bela Anne Hathaway amealhou em “Diário da Princesa” e principalmente “O Diabo Veste Prada” certamente vão estranhar este “O Casamento de Rachel”, de Jonathan Demme. Longe do romance açucarado do primeiro e da comédia do segundo, Anne surpreende ao encarar com talento este drama depressivo sobre Kim, uma garota dependente de drogas que sai da clínica de tratamento direto para o casamento da irmã Rachel. Antes e durante a festa, muita roupa suja vai ser lavada. O bom diretor Demme (“O Silêncio dos Inocentes”) andava meio sem rumo em meio a produções comerciais, mas acertou a mão aqui. Ele cria uma atmosfera sombria, usando basicamente luz natural, ausência de trilha sonora (exceto incidental, já que Rachel tem vários amigos músicos) e muita câmera na mão, ora correndo atrás dos personagens, ora retratando com objetividade o seu entorno. O estilo lembra muito o movimento dinamarquês Dogma 95, também pela aridez do roteiro, que passa ao largo das concessões sentimentais que esses filmes de acertos de contas em família costumam oferecer.

O maior mérito de Demme é sem dúvida a escolha de Anne Hathaway (indicada para o Oscar) no papel principal. Ela mesma foi depressiva na adolescência e compõe um personagem forte e envolvente. Há uma cena que vale o filme: durante um jantar, a família dos noivos se reveza ao microfone em discursos elogiosos ao casal. Em meio ao tédio que todos já viram nesse tipo de cena, os movimentos rápidos da câmera pegam Kim ao fundo. Apenas por seus olhares e sutis expressões faciais é possível sentir seu desconforto. Ela vai explodir. Mas seria injusto creditar o mérito do filme apenas à atuação de Anne. O diretor sabe usar a manjadíssima câmera na mão a serviço da narrativa, desenhando um universo caótico e quase convulsivo. O recurso dos planos seqüência também acentuam a atmosfera sufocante.

O drama familiar vai sendo montado aos poucos. Drogada, Kim dirigiu um carro e causou um acidente e uma morte. Culpa-se e é culpada. Mas a medida que o quebra cabeças vai se completando, o espectador percebe que talvez ela não seja tão culpada assim. Talvez nem seja a mais maluca da família. Não deixa de ser curioso que um filme tão autoral e depressivo, com uma narrativa tão fora dos padrões, esteja sendo lançado num esquema de blockbuster. Se vai decepcionar quem espera a estética clássica do blockbuster, certamente agradará quem gosta de uma experiência original e reflexiva.

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