CORALINE E O MUNDO SECRETO:


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Original: Coraline
País: EUA
Direção: Henry Selick
Elenco: Animação 3D
Duração: 102 min.
Estréia: 13/02/2009
Ano: 2009


Muito belo


Autor: Cid Nader

Creio que Coraline e o Mundo Secreto seja a melhor animação que vi nesses tempos de animações ganhando espaço destacado nas salas de cinema, além das sessões infantis. A aposta na beleza e singeleza do stop-motion, em tempos de animações rebuscadas e tratadas em computadores com a técnica cada vez mais inacreditavelmente complexa do 3D, já é um passo importante em direção ao lirismo e possibilidades lúdicas que trabalhos no modelo podem alcançar. Henry Sellick é um dos grandes craques internacionais no "assunto stop-motion" - e vale lembrar, ao contrário do que faria supor o extraordinário desenvolvimento do 3D, que a técnica parece cada vez mais um objeto cult de utilização nas mãos de realizadores com pendor para as artes e a compreensão humana. Filmes no formato curto abundam – inclusive com produtos belíssimos criados aqui no Brasil -, como que por contraposição natural a fluxos, como que por reação típica da natureza que cria e recria, constantemente.

Até vale lembrar que Coraline e o Mundo Secreto" tem seu lado forte no mundo 3D – o que pode parecer impensável para quem assisti-lo em salas com projeção comum. O pé do filme no mundo digital se dá justamente pela opção ofertada a quem queria vê-lo em projeção 3D estereoscópica (aquela que necessita do amparo dos tais óculos especiais que, aglutinarão as imagens duplicadas na tela, embaralhando o cérebro do espectador, e criando a sensação de imagens que pulam da tela nos colos e ao alcance das mãos): no caso dessa animação, o carinho com o qual essa opção é adotada faz com que tal técnica não ultrapasse o limite de mera contribuição com o trabalho para estabelecer-se como o grande chamariz. Sellick, parecendo entender com alma de artista de stop-motion o que poderia contribuir - jamais submetendo seu filme a "sequestros técnicos"-, não criou climas onde a técnica se valeria de momentos de picos; ao contrário, diluiu-a por toda a existência da história, camuflando-a entre os "materiais de verdade" utilizados. Só digo que é até bacana essa possibilidade a mais, mas o filme é tão bom e competente que assisti-lo "à maneira antiga" também o fará tão admirável quanto.

Falando em "materiais de verdade", os utilizados dessa vez parecem vir para desmontar uma espécie de mito que povoa as mentes dos que vêem o stop-motion como a técnica dos bonecos de massinha. A utilização da técnica significa construir imagens em movimento, fotografando o que quer seja (em Coraline, por exemplo, bonecos feitos com pano, agulhas, botões, linhas...) quadro a quadro, para que após, aglutinados, o movimento deles se faça no momento das projeção. Há os momentos das massinhas sim, obviamente – como há também a utilização do 2D na composição de algumas cenas (como a da teia, próximo do final do filme), ou na criação de alguns cenários de fundo -, mas há também uma grande sacada imagética que conduz o espectador ao mundo das linhas, agulhas e botões, como as "confeccionadoras" das vidas que desfilarão pela tela (e isso tem muito a ver com a alma, a essência da história dos personagens e de seus anseios).

Justamente na complexidade dos personagens e seus âmagos estabelece-se a outra grande virtude dessa animação. A história empresta a alma de uma típica garota no início da adolescência, e é muito justa no modo de interpretá-la (como uma peça iconográfica de toda a espécie). Coraline já tem suas questões a serem lançadas ao mundo, e, naturalmente, junto com isso surgem fortemente as questões sobre razões de procedimentos (dos mais comuns, cotidianos, por vezes) dos pais: ela representa bem aquela fase em que a adolescência está se instalando e tudo passará a incomodar, mas resquícios de necessidades infantis ainda pulsam aleatoriamente. E percebendo isso com muita sutileza (na realidade, readequando um livro de Neil Gaiman - que já havia surtido o nascimento de uma peça de teatro, de uma história em quadrinho...), o enfoque das discussões internas dela é dirigido pelo diretor ao imaginário e ao desejo que levariam aos pais perfeitos. O filme fala de situação comum à idade e atemporal nesse sentido. A partir daí, a mistura de tempos (um palácio cor de rosa, um moleque especial que anda de bicicleta, acompanhado por um gato sinistro, e paramenta-se com câmeras no capacete – Wibie Lovat é o nome dele, que presença extremamente marcante e cativante no momento em que aparece no "outro lado da história" -, duas irmãs ex-vedetes, o dono de um circo de ratos...) e modos de comportamento, fecham incrivelmente bem um trabalho que fala de problemas existenciais, não nega seu quinhão no mundo comportamento meio dark moderninho dessa molecada, sem jamais ter negado a singeleza do obtido via opção da confecção em stop-motion. O clima feminino da animação, os modos de Coraline, as sutilezas percebidas por dentro de todo um emaranhado nada fácil de ser costurado, acabam fazendo pensar nela como uma das mais bem executadas ultimamente, realmente: e reforçando o óbvio, para crianças ligadas e adultos.

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