O LUTADOR:


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Original: The Wrestler
País: EUA
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood, Mark Margolis, Todd Barry, Wass Stevens, Judah Friedlander, Ernest Miller
Duração: 109 min.
Estréia: 13/02/2009
Ano: 2008


Rourke é a face e o corpo da América dos sem amanhã


Autor: Fernando Oriente

As primeiras cenas de “O Lutador” são um vislumbre do universo que o espectador irá mergulhar ao longo do filme. A melancolia da primeira imagem, em que vemos Mickey Rourke sentado num vestiário (focalizado de costas em um belo enquadramento) é a essência do sentimento de desolação e da falta de perspectivas que assolam todos os tipos do longa. Interpretado por um ator inspiradíssimo, o protagonista Randy é uma das figuras mais emblemáticas criadas pelo cinema americano nos últimos anos. E é exatamente por meio das marcas e expressões de seu rosto e das cicatrizes em seu corpo que seremos conduzidos pelas fortes emoções de um filme que abusa da força dos sentimentos e dos lugares comuns, mas não cai na pieguice e consegue penetrar fundo nas múltiplas texturas dos dramas que retrata.

Ao longo do filme, a câmera do diretor Aron Aronofsky irá “perseguir” Randy em sua jornada, seguindo seus passos em travellings frontais e tentando entrar em seu ambiente de ação. Com imagens de um naturalismo cru, o cineasta registra a mediocridade da vida de seu anti-herói e segue seus passos desde os locais onde se realiza como lutador até aqueles em que se sujeita aos códigos impostos para ganhar o suficiente para continuar sobrevivendo. Sobreviver é mesmo o faz. Ele é um típico representante daquelas pessoas que não tem tempo para recomeçar e muito menos um futuro acolhedor para esperar. É um pária, um exilado das glórias que viveu há mais de vinte anos quando era uma das estrelas do circuito da luta livre.

Randy carrega em sua figura as marcas da decadência do corpo e as cicatrizes (internas e externas) que o passar do tempo deixou. O desgaste de sua carne é mais do que degradação física e Aronofsky usa esse homem “arrebentado” pela vida como personificação do “loser”. Esse tema, tão caro aos americanos, é muito bem explorado pelo diretor por meio de imagens poderosas em sua objetividade e construídas em cima de uma dramaturgia sólida e seca. “O Lutador” é um filme erigido em torno da forte presença física de seu protagonista e de suas ações. É um longa sobre a dor do esfacelamento dos sonhos e sobre o duro despertar de uma fantasia que passou do prazo de validade deixando apenas uma melancólica nostalgia. A forte carga de sentimentos e sensações do longa é potencializada pela bela e discreta fotografia de Maryse Alberti, que trabalha com um registro de luz pálido e prioriza uma paleta de cores de tons desbotados; elementos que ampliam a desolação dos tipos.

Usar o universo da luta livre é um dos trunfos do filme. Esse ambiente, subproduto brega e vulgar de uma indústria cultural trituradora, em que uma “arena moderna” serve de palco para gladiadores fajutos encenarem combates violentos para alienação catártica de espectadores entorpecidos pela rotina infrutífera de suas vidas sem sentido é o cenário perfeito para a proposta dramática de “O Lutador”. É nesse espaço que Randy e seus colegas encontram a única maneira de chegarem próximos a uma concretização de suas personalidades. É em meio a esse espetáculo patético que a câmera de Aronofsky se insere na captação fria da realidade subjetiva desses personagens, que apesar da aparência de guerreiros musculosos e destemidos, são retratados com sensibilidade pelo diretor, que realça suas características humanas e suas fragilidades.

Em meio à dor e aos sofrimentos de sua vida, Randy é um tipo cheio de ternura, que num momento crucial de sua vida encontra-se cansado da solidão e disposto a suprir suas carências. A incapacidade em se fazer compreender e em demonstrar seus sentimentos frustra essas tentativas. A única pessoa com a qual existe uma possibilidade de interação é a stripper vivida por Marisa Tomei (ótima no papel). Como ele, ela vive da exploração de seu corpo e serve como objeto de consumo. Aronofsky filma o discurso corporal, realçando a importância estética da carne mal tratada de seus protagonistas. Tanto a stripper quanto o lutador têm seus corpos destacados em primeiro plano, seus movimentos exaustivos são a materialização simbólica de seus tormentos.

Aronofsky trabalha em cima de situações comuns e temas clássicos do cinema americano. Esses elementos, que poderiam resultar em um filme cafona, são subvertidos pelo diretor, que inverte a seu favor os chavões e os clichês. Frases de efeito e cenas de forte carga emocional são incorporadas de forma precisa ao desenvolvimento do longa, aumentando a carga dramática das sequências. Tudo é muito bem decupado e quando o cineasta flerta com o sentimentalismo (como na relação deteriorada de Randy com sua filha) acaba se saindo bem ao restringir os conflitos em cenas diretas que se resolvem rapidamente.

A atuação de Mickey Rourke merece um parágrafo à parte. O ator, após algum tempo no ostracismo, é a alma do longa. Ele “suja” o personagem em uma caracterização forte que dá dignidade ao seu tipo e traz nuances extras que potencializam a profundidade dramática de Randy. Sua figura estropiada é uma imagem que dificilmente sairá da cabeça do espectador após a projeção desse triste e poderoso filme, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2008.

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