O LEITOR:


Fonte: [+] [-]
Original: The Reader
País: EUA/ Alemanha
Direção: Stephen Daldry
Elenco: Ralph Fiennes, David Kross e Kate Winslet
Duração: 124 min.
Estréia: 06/02/2009
Ano: 2008


Massa moldada


Autor: Marcelo Miranda

Na temporada pré-Oscar, o circuito de exibição brasileiro é invadido pelos filmes do momento, que concorrem às cobiçadas estatuetas douradas. "O Leitor", então, tem a façanha de ter se imposto entre os cinco finalistas ao prêmio de melhor filme na edição deste ano (graças aos poderosos produtores Harvey e Bob Weinstein) mesmo sem chamar muita atenção quando exibido nos EUA. Há quem diga que ele tirou a vaga do incensado "Batman – O Cavaleiro das Trevas", mas aí é especulação demais – fora que afirmar algo assim também é dar bola em excesso ao filmão-que-se-deu-bem do Christopher Nolan.

Não que "O Leitor" seja lá um filme muito melhor que "Batman". Na verdade, são dois trabalhos de mediocridade travestida de filmes "pensantes", dentro das suas características industriais mais básicas (um blockbuster de super-herói de um lado, um drama romântico-histórico do outro). No fundo, são arremedos realizados por cineastas em busca de algum produto palatável a massas que vão comprar aquelas idéias expostas nada discretamente na tela como se estivessem descobrindo o real valor do cinema como arte. Definitivamente, não é o caso.

"O Leitor" mostra o envolvimento de um adolescente com a misteriosa personagem interpretada por Kate Winslet, num verão do final dos anos 60 na Alemanha. Após se afastar da moça, o rapaz segue sua vida de estudante de direito e se torna advogado respeitável, mas abalado emocionalmente pela paixão do passado – que, claro, ressurgirá em seu caminho quase literalmente como um zumbi. O que se desprende desse enredo não tem muito mais do que a sinopse de pé de jornal é capaz de revelar.

O diretor Stephen Daldry, artesão competente, entrega um projeto moldado em todas as arestas para ser uma coisa linda: fotografia, direção de arte, elenco, lágrimas, redenções. Tudo num ar excessivamente acadêmico (e não simplesmente clássico, como pode parecer). Cenas construídas como momentos-ápice da narrativa (especialmente a das fitas cassete, claramente desenhada para ser o ponto nevrálgico do filme) terminam por se apresentar básicas demais, numa busca pelo emocional que morre na imagem, sem extravasá-la.

É um filme de proposta emocional anterior à própria existência, que quer a todo custo comover a partir de situações tristes que, na falta de "pegada", soam simplesmente artificiais na tela. É algo parecido (porém, menos desbragadamente constrangedor) a "Foi Apenas um Sonho", outro filme protagonizado por Kate Winslet em cartaz e oscarizável desde o nascedouro.

Tanto "O Leitor" quanto "Foi Apenas um Sonho" e mesmo o mastodôntico "O Curioso Caso de Benjamim Button" acabam se aproximando do que parece ser a tônica dos "filmes de Oscar" da safra recente: produtos de massa moldados da maneira menos sutil possível e que, no fundo, apenas reverberam (mal) discursos e estéticas já incansavelmente marteladas pela indústria, só que em roupagem "séria" e supostamente contundente e comovente. Falta honestidade, no fim das contas.

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