OS CONTOS DE CANTERBURY:


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Original: I Racconti di Canterbury
País: Itália
Direção: Pier Paolo Pasolini
Elenco: Laura Betti, Hugh Griffith, Ninetto Davoli
Duração: 110 min.
Estréia: 30/01/2009
Ano: 1982


Pasolini celebra a vida e o prazer na negação do moralismo


Autor: Fernando Oriente

A aparente simplicidade das narrativas que compõe “Os Contos de Canterbury” (1972) é um forte elemento dramático que Pier Paolo Pasolini usa para compor um tratado de celebração da vida, por meio de seus prazeres e pecados, e de negação e crítica do moralismo reacionário que tanto o incomodava. Assim como nos outros dois longas que compõem a “Trilogia da Vida” (“Decameron”, de 1971 e “As Mil e Uma Noites”, de 1974) o cineasta italiano trabalha a poética visual, a liberdade de encenação e a significação dos planos para enaltecer o homem em suas características mais humanas e elementares.

Existe em “Os Contos de Canterbury” uma afirmação do prazer e da alegria e uma celebração positiva do sexo. Para Pasolini, esses elementos são fundamentais para consolidação do eu; são, ao mesmo tempo, alimento para o espírito e para o corpo. A crítica do diretor em relação à sociedade da época, e que se torna ainda mais atual nos dias de hoje, vem do conflito entre a visão de mundo que encena e a vulgarização da auto-exposição asséptica e do voyeurismo covarde e de recalque puritano que domina nossa sociedade.

Com uma mis-en-scene ancorada na liberdade da construção dos planos, com uma câmera leve e solta, Pasolini aborda o sexo, o prazer e as inter-relações dos personagens com uma naturalidade objetiva que vê no ser humano tipos imperfeitos em busca de felicidade e gozo. O desenrolar das ações em um tempo passado (com impressionante apuro e bom gosto na direção de arte), livre de códigos de conduta ditos racionais, amplia o potencial da retórica do diretor. Outro aspecto que amplia ainda mais a força de “Os Contos de Canterbury” é o trabalho de montagem. A união entre os contos dá-se de maneira sutil, em que o espectador é levado de um relato a outro sem que a fruição do longa perca o ritmo.

Essa aparente simplicidade das cenas esconde um sofisticado e poético trabalho de direção que mergulha com sensibilidade no registro da sensualidade, do prazer e do descompromisso moral das ações. Como Pasolini sabe que a moral é abstrata e subjetiva, faz com que as atitudes de seus personagens sejam comandadas por impulsos, sem amarras conservadoras ou respeito a códigos de conduta castradores. São as imperfeições humanas e a noção dessa limitação que permite aos tipos a consolidação do encanto e o acesso à alegria da existência. O moralismo existe, no universo de “Os Contos de Canterbury”, para ser superado, “enganado” e ter suas imposições e regras implodidas pela liberdade de agir do ser humano. É uma certa imoralidade que desafia de forma quase heróica, ao mesmo tempo que natural, esses valores morais tortos.

Ao filmar a “’essência da vida”, Pasolini critica o artificialismo e o consumismo “higiênico” (no sentido daquele que apreende tudo aquilo que se pode adquirir dentro das normas de alienação segura da mercadoria). Os personagens do longa nunca são julgados; seus esquemas, artimanhas e pequenos delitos são vistos com um distanciamento quase conivente, em que a busca da felicidade e a consumação do desejo dão autenticidade as ações. É essa postura afirmativa de Pasolini que o tornou um dos artistas mais “humanos”, libertários e, ao mesmo tempo, críticos da história do cinema. Da mesma forma que dava liberdade aos tipos comuns, condenava de forma impiedosa os estratos sociais que tanto desprezava (a burguesia em “Teorema” e “Pocilga” e os conservadores fascistas em “Saló”).

O sexo, elemento fundamental em toda a “Trilogia da Vida” é o oposto do que vemos na sociedade do espetáculo que domina o mundo. É livre do aspecto marqueteiro e artificial, em que a exibição dos corpos de laboratório mecanizada em repetição em série (em que gestos e expressões ditas sensuais dominam a cena) revela simulacros de intimidade que recalcam qualquer tentativa de autodeterminação da sexualidade. Em “Os Contos de Canterbury” o sexo e o gozo (filmados de maneira direta e objetiva) são um exercício libertário e verdadeiro; a exibição dos corpos nus é fonte de prazer tanto para os que se desnudam como para os que observam. A leveza e a sinceridade do erotismo conduzem as cenas.

As imagens de Pasolini são, em meio à exposição do real recriado e captado pela câmera, uma expressão poética da realidade pretendida pelo cineasta. Ele extrai poesia das sensações de prazer e alegria dentro de uma visão subjetiva da vida. São possibilidades de significação do real trabalhadas pelo olhar e pela sensibilidade do autor. A obra de Pasolini é sempre uma analise subjetiva dessa realidade, em que a recusa do cinema verdade e do naturalismo cru vem carregada pela poesia da imagem e dos significados amplos que caracterizam seu trabalho singular.

O marxismo de Pasolini está presente ao logo do filme, principalmente na crença que o cineasta sustenta nas potencialidades do homem e em sua visão terna em relação às características essencialmente humanas de seus personagens. Um marxismo livre de dogmas, discursos didáticos e revisionismos, em que a equidade entre das pessoas articula as ações.

É interessante notar como cada um dos filmes da “Trilogia da Vida” possui características particulares no seu aspecto estético, embora os três longas componham um todo coerente com os movimentos internos que sustentam o tríptico. Desde as tonalidades de cor, passando pela intensidade da luz até a maneira como Pasolini traduz para a mis-en-scene alguns detalhes da dramaturgia de cada um dos textos clássicos que filma. Essas pequenas e importantes diferenças fazem com que cada obra tenha um fôlego próprio que as sustentam de forma independente, mas que quando unidas no conceito central do projeto, ganham ainda mais força de conjunto.

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