INÚTIL:


Fonte: [+] [-]
Original: Wuyong
País: China/Hong Kong
Direção: Jia Zhang-ke
Elenco: Documentário
Duração: 90 min
Estréia: 16/01/2209
Ano: 2007


Jia Zhang-ke continua a dissecar a China da globalização.


Autor: Cid Nader

Jia Zhang-ke é o nome da vez no bom e desejado cinema atual. Tenho repetido isso por minhas linhas e, realmente, não dá sequer para pensar em botar em dúvida sua importância - talvez não o único, mas um dos mais mais mesmo. Notabiliza-se pelo apurado e particular modo de olhar o interior - as pessoas, seus dramas, questionamentos, indecisões, poréns... - de um país gigantescamente populoso, que é o fenômeno econômico atual, mas que sofre muito com tais transformações; principalmente nas mentes dos seus. Já abordou essa perspectiva das complicações interiores no mundo dos jovens, em "A Plataforma", ou de maneira mais particular - na realidade, através de dois casais entendeu toda uma região em plena destruição - em "Em Busca da Vida". Filma de modo próprio, calmamente, vagarosamente, cuidando de ostentar pequenos detalhes do entorno, ou das reações de seus personagens, para fixá-los como representação concreta e visível do que pensa. Por sorte nossa, esse tipo de espírito que compreende e observa, analisa e disseca, pertence a um cineasta, e nossa melhor ferramenta para observação do mundo ganhou muito em qualidade e no que dizer.

O diretor também é realizador de documentários, mas, antenado - na realidade já o percebo como referência a ser copiada -, o faz de modo bastante particular, intrometendo aspectos ficcionais nesse modelo, como se faz usualmente hoje em dia por grandes realizadores do gênero, mas com uma pitada particular que só os "diferentes" conseguem. Essa diferença se faz nítida quando se nota que ele tenta entender à sua maneira o mundo e os personagens reais que está retratando, mas que essa sua maneira de olhar e entender são de teor e importância bastante consideráveis - alma de artista sensível -, além da capacidade de destrinchamento e compreensão do "capturado" muito acima do comum. Já havia tido a oportunidade de conferir a sua extrema capacidade para o gênero em sua realização do ano retrasado, "Dong". Mas torna-se bastante mais importante percebê-lo numa seqüência no gênero nesse mais recente "Inútil".

"Inútil" é título que a estilista chinesa Ma Ke deu a uma coleção sua, apresentada no ano de 2006, em Paris. Jia acompanha o trabalho da estilista de alta-costura e "invade" sutilmente seus ateliês de costura. O diretor não está de forma alguma preocupado em mostrar a superficialidade ou a superfície desse mundo. Seu interesse está nas figuras que trabalham para ela. Suas lentes captam cuidadosamente o que ocorre dentro de seu estúdio mas se foca nos funcionários, tanto quando se foca do lado exterior, quando procura uma fábrica de tecidos para compor parte do trabalho, ou uma mina de carvão - aparentemente díspares essas buscas de imagens, fica nítido que não são quando se sabe que o olhar do diretor está à cata de seus trabalhadores, de seus operários. Zhan-ke novamente pensa em revelar o interior da gigantesca potência econômica, revelando verdadeiramente que esse interior humano é sensível e individual. Consegue com passeios de suas lentes - a cena em que contorna o pescoço de uma costureira é de tamanha sutileza e qualidade nos detalhes que fica difícil questioná-lo quanto à sua capacidade de observador – muito mais do que enormes explanações orais que são via de regra em documentários de outros realizadores, para se fazerem compreendidos. Esse modo de prescindir um pouco a mais das palavras é marca registrada, mas tem razão de ser quando se observa o modo comum de comportamento cotidiano das pessoas do país.

E esse modo e mais calado de comportamento comum ao povo se faz belamente retratado quando o diretor aborda uma mulher que vai a uma oficina de costura - aliás, a observação dessa oficina é bastante sintomática quando percebida em contraste a um país que cada vez mais se industrializa (e perde individualidades, copia modelos, embrutece... Todas essas, preocupações de Jia) -, e quando ela se permite ser filmada, e logo após com o marido, em casa, com raros e envergonhados modos de explicitar seus sentimentos de casal, culminando em explosão de beleza e intenção do diretor quando os acompanha (suas lentes sendo seus olhos) em um passeio de moto. Quer dizer: Jia Zhan-ke revela um país que cresce, que depende de um povo calado, mas que reage a seu modo às mudanças; procura revelar várias facetas de uma nação e consegue fazê-lo quando particulariza isso, entendendo suas pessoas.

Leia também: