O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON:


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Original: The Curious Case of Benjamin Button
País: EUA
Direção: David Fincher
Elenco: Brad Pitt, Tilda Swinton, Cate Blanchett, Elle Fanning, Elias Koteas, Julia Ormond, Jason Flemyng
Duração:
Estréia: 16/01/2009
Ano: 2008


Fincher assina longa irregular em tom de fábula


Autor: Fernando Oriente

O novo filme de David Fincher, "O Curioso Caso de Benjamin Button", não merece uma análise afobada. A primeira impressão que o longa causa pode ser inapropriada, já que ao longo de suas duas horas e quarenta minutos de duração, uma forte sensação de incômodo pode acometer o espectador que já encontra-se saturado da cafonice que predomina na maioria dos dramas norte-americanos da atualidade. Um texto que parece retirado de publicações de auto-ajuda contamina boa parte da história, seja na narração em off meio melosa, ou em diversas das cenas. É certo que a nova obra do diretor não atinge um resultado além de regular, mas os fatores que certamente o comprometem não o condenam por inteiro.

O que salva o longa é o talento de Fincher e a interpretação de Brad Pitt. Como tem mostrado desde sua estréia na direção (em "Alien 3", de 1992), o cineasta une de forma correta seu virtuosismo visual com uma grande segurança na construção dos planos, o que quase sempre garante cenas bem compostas, ligadas por uma competente montagem. Os recursos estéticos, em todos os seus filmes, servem para ampliar o potencial das situações que encena; Fincher gosta de imagens rebuscadas, sofisticadas, e para tal abusa de detalhes e minúcias na direção de arte, apuro na fotografia e movimentos de câmera inusitados. Essa beleza plástica serviu bem melhor aos thrillers dirigidos por ele. No caso de seu novo trabalho, a falta de profundidade dos dramas encenados não são aliviados pelos recursos formalistas empregados no longa.

A longa duração do filme não compromete sua fluência, novamente por méritos do diretor. A sucessão das cenas, o desenrolar da narrativa e a evolução de uma situação à outra são executadas de forma competente e equilibrada. Outra escolha fundamental para a proposta do filme é a opção em se contar os fatos em flashback. Esse recurso tem um resultado paradoxal. Ao mesmo tempo em que traduz a passagem de tempo invertida que caracteriza a vida do personagem central e amplia o tom de fábula do filme, o excesso de sentimentalismo e um conformismo cafona no texto diluem o potencial da discussão sobre a passagem do tempo e a finitude da vida, temas que são a essência de "O Curioso Caso de Benjamin Button".

Esse aspecto do correr do tempo, do fim inevitável e de como o ser humano não tem como evitar esse conflito só atinge pontos mais elevados (embora muita vezes piegas) na meia hora final, principalmente quando Benjamin Button já é fisicamente uma criança. Outro tiro no pé do filme é a maneira como a intenção de retratar os sentimentos que caracterizam a vida simples (de gente simples) de maneira ingênua e com tons inocentes resulta em uma simplicidade que é moldada por padrões moralistas e por uma resignação conformista.

Os altos e baixos do filme são uma constante. Fazer com que o personagem, que nasce velho e decrépito, cresça (e rejuvenesça) em um asilo, cercado de idosos e vivenciando a frequente morte de seus companheiros de casa é um dos pontos altos do filme. O conflito entre sua recuperação física com o fim iminente daqueles com que convive é uma ambiguidade que também é diluída pelas opções dramatúrgicas superficiais do longa.

O rejuvenescer de Benjamin Button é o equivalente a um processo de renovação, a uma permanente possibilidade de recomeçar que cada pessoa tem na vida. São temas simples, quase singelos como esses, que interessam a David Fincher neste novo filme. É um longa que também assume seu apreço pela nostalgia, pelo valor daquilo que vivemos e de que maneira isso nos acompanha por toda nossa vida. É uma constatação que vem cheia de melancolia, já que todos temos a certeza de que essas experiências vividas irão perecer. Esses aspectos, se fossem explorados com mais intensidade e menos superficialismo, resultariam em um filme bem mais interessante.

O outro destaque positivo de "O Curioso Caso de Benjamin Button" fica por conta da interpretação de Brad Pitt. Sua atuação é sensível e convincente, principalmente por ser contida e não cair em excessos e maneirismos. Ele passa ternura e fragilidade para seu personagem, evitando afetações. É mais um caso de um bom ator que, com o passar dos anos, vence o preconceito que sofre por ser galã e passa a conquistar a respeitabilidade que seu talento merece.

Talvez o que mais prejudique essa nova empreitada do diretor seja a mudança de gênero. Fincher mostra-se a vontade quando dirige thrillers e filmes onde o suspense e ação estão no centro da narrativa. Em seu novo longa, em que o tom de fábula e os elementos de drama são o fio condutor, falta ao cineasta a densidade na construção da mis-en-scene e o aprofundamento dramático das situações que filma. Com seus defeitos e qualidades, "O Curioso Caso de Benjamin Button" resulta irregular, distante dos melhores trabalhos do diretor (principalmente do poderoso "Zodíaco", de 2007). Mas uma sequência de "O Curioso Caso de Benjamin Button" mostra claramente o poder do virtuosismo estético que caracteriza o estilo de Fincher. A passagem em que o atropelamento de uma personagem é recapitulado, por meio de planos ágeis, montagem frenética e narração em off, tem a assinatura da criatividade visual desse diretor que, certamente, está acima da média da maioria de seus parceiros na indústria hollywoodiana.

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Seria melhor ainda se não colocasse os pés no chão.