PAGANDO BEM, QUE MAL TEM?:


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Original: Zack and Miri Make a Porno
País: EUA
Direção: Kevin Smith
Elenco: Elizabeth Banks, Seth Rogen, Jason Mewes, Gerry Bednob, Edward Janda, Nicholas Lombardi, Chris Milan, Jennifer Schwalbach
Duração: 102 min
Estréia: 20/03/2009
Ano: 2008


Não é bem assim


Autor: Cid Nader

Se esse novo filme de Kevin Smith não pode ser considerado como uma marco em sua carreira – carreira que decolou com seu segundo longa metragem, "O Balconista" (1994), de forma quase devastadora, inovadora, questionada e hiper-valorizada -, tem, no entanto, a capacidade (não procurada, evidentemente) de evidenciar diferenças básicas na composição das "civilizações" brasileira e norte-americana. A história do filme fala em fazer um filme pornô como medida desesperada, encontrada pelos amigos Miriam "Min" Linky (Elizabeth Banks) e Zack Brown (Seth Rogen), para se sair de enrosco financeiro. Para nós aqui abaixo do Equador, um mote que tem levada até tranquila, quando conferido o resultado prático da empreitada; enquanto lá nas terras ianques cabelos foram puxados em sinal de desespero, já desde antes da finalização das filmagens, antevendo o pecado como algo que viria para danar a moral firme e forte dos de lá. O cinema, por vezes, se faz como um elemento de comparação bastante evidente entre os modos de ser dos norte-americanos, quando comparado ao que ocorre na maioria dos países ocidentais – e o que fica mais evidente ainda, é que quando constatadas as obras de lá que deveriam ser jogadas no caldeirão da perdição, quando comparadas a trabalhos da mesma "índole" realizados aqui ou em alguns outros locais, percebe-se-as quase puritanas de tão frágeis e envergonhadas nas imagens obtidas e utilizadas. É questão a ser discutida em outra ocasião, até porque os Estados Unidos não são berço de puritanismo castrador e envergonhado, somente; é país de onde surgiram os maiores movimentos revolucionários de comportamento social das últimas décadas (o que deixa transparecer que a instituição EUA – estado e religião, fundidos – representam a nação oficialmente, mais do que seria o desejado).

Kevin Smith até deixa aparecerem algumas partes de corpos mais picantes (rapidamente e em momentos onde a comicidade impede vê-las como algo sério e tentador) em Pagando Bem Que Mal Tem. O diretor até criou personagens um tanto na contra-mão da moral e do bom modo de ser desejado pela família americana e pelas instituições mais poderosas. Poderia dizer que ousou a mais do se imaginaria (repisando, parecendo chato, mas só pra deixar bem claro: quem ficou escandalizado foram setores que se fazem de oficiais e passam a impressão de falar por todos de lá, e alguns setores ligados á produção - e nesse caso, fica evidente o medo de se perder dinheiro investido por conta das pressões moralistas), mas na realidade, o pior buraco da história, a pulga mais cabeluda, a questão que faz o filme ser produto que causa desconfiança, é que lá, no fim de tudo, quando os rolos estão alinhados e as tramas sem nós, a constatação é a de que o que se viu na tela nada mais é do que um singelo filme de amor.

Algo contra filmes de amor, filmes românticos, filmes que pretendem ao final celebrar a união entre um homem e uma mulher? De minha parte, nunca! Desde que a intenção não viesse camuflada e se aproveitando de outras possibilidades de manifestação, com a visível intenção de fazer do “escândalo” um mote para a obra ser notada – e se, por conta do tipo de escândalo falseado alguns setores norte-americanos vierem a se afastar e até a tentar boicotar, no resto mundo “mais livre”, tal tipo de apelo acaba por servir de chamariz. Kevin Smith fez um filme que é verniz do que se produz no cinema norte-americano com um bom nível de qualidade, praticado por irmãos Farrelly e cia. Pior: os momentos de humor escatológico servem na realidade como um disfarce aos momentos picantes – como disse acima, corpos e cenas de sexo são diluidas dentro da potência que piadas fortes podem oferecer, portanto, “nada de escândalo sexual por favor”.

É fácil qualquer um se pegar rindo durante o filme. Foi esperto, da parte de Smith, escrever o papel masculino pensando em Seth Rogen,nop papel de Zack Brown (ator quase ícone dos filmes atuais de transgressão pornográfico/escatológica) – o nome e a figura do ator, por si só, são dos maiores chamarizes atuais. É especialmente bela a sensualidade calma de Elizabeth Banks (Mirian “Min” Link). Seria muito engraçado o trabalho se fosse realmente ousado na origem. Seria bonito como filme de amor. Pena que não assuma sua faceta evidente.

P.S.: de qualquer maneira, nunca abandone um filme de Kevin Smith antes do final dos créditos.
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