NOIVA CADÁVER:


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Original: Tim Burton’s Corpse Bride
País: EUA
Direção: Mike Johnson e Tim Burton
Elenco: Animação
Duração: 77
Estréia: 21/10/2005
Ano: 2005


A Noiva-Cadáver: Sétima Arte, Oitava Maravilha


Autor: Fábio Yamaji

Sabe aquele filme que, de tão bacana, você não quer que acabe? “A Noiva-Cadáver” é assim. Um passeio empolgante por uma história com personagens carismáticos em situações fantásticas, cheias de bom-humor e reviravoltas. Some-se a isso um trabalho elaborado e de extremo bom gosto em cenografia, figurino, direção de arte, design de personagens, fotografia, música e acting para torná-lo um dos melhores filmes dos últimos anos. Exagero? Acredito que não. Sim, sou suspeito para emitir uma opinião, reconheço - afinal, esta é a minha área de atuação profissional - mas isto também me qualifica pra avaliar o filme com conhecimento de causa.

Animação realizada inteiramente na artesanal técnica do stop-motion, junta-se a “Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais” para fazer deste um ano especial para o gênero. É a primeira vez que dois longas animados quadro-a-quadro dividem as atenções do espectador num mesmo mês, ofuscando, pelo menos momentaneamente, o deslumbramento pelos filmes em computação gráfica instalado na última década.

Ambientado numa cinzenta cidade vitoriana, a história acompanha as desventuras de Victor Van Dort, um jovem confuso, envolvido num casamento de conveniência com a tímida Victoria Everglot. Após um desastrado ensaio para a grande cerimônia do dia seguinte, Victor segue para a floresta para memorizar seus votos, e acaba por se comprometer acidentalmente com uma morta-viva, a bela Noiva-Cadáver. Daí seguem-se situações de terror, paixão, ganância, empatia e dúvida, embaladas por números musicais ora divertidos (na “terra dos mortos”), ora emotivos (na “terra dos vivos”) – sem excessos.

O contraste entre esses dois mundos é radical. Enquanto a Terra dos Vivos é demasiada sóbria, monocromática e entediante, a Terra dos Mortos se apresenta anárquica, em cores saturadas, “vivendo” intenso clima de festa. É lá que o grupo de jazz formado por esqueletos (tendo um insuspeito Ray Charles ao piano) protagoniza uma sequência memorável em show com jogo de luzes, dança e elaborado trabalho de câmera. É neste momento que se percebe a afinidade dos dois diretores, Mike Johnson e Tim Burton, quando lembramos do premiado curta do primeiro - “Devil Went Down to Georgia” (um duelo musical entre um caipira violinista e o diabo) – e o longa “cult” do segundo - “O Estranho Mundo de Jack” – cuja cena em que Oogie Boogie tortura o Papai Noel ganha ambientação em cassino com luz negra e canção irônico-debochada.

Fazendo o contraponto, a empatia entre Victor e Noiva-Cadáver se dá em uma emocionante cena ao piano, na macabra mansão dos Everglot. Desiludida, ela dedilha algumas notas, que ele completa tentando reanimá-la. Notando a cumplicidade, ela aceita momentaneamente a parceria, participando de um delicado dueto em magistral registro cinematográfico. Impressiona ver a animação minuciosa dos bonecos (eles realmente pressionam os teclados em sincronia com a nota respectiva) aliada à sutileza do movimento circular da câmera. Particularmente, é um virtuosismo saboroso a ser notado pelos apreciadores de stop motion. Para se ter uma idéia do feito, a câmera é animada quadro-a-quadro junto com a manipulação dos bonecos, sendo que cada sequência de 24 desses quadros geram somente 1 segundo do filme final. Um trabalho de planejamento árduo e muito estudo. Nesta cena ouve-se a bela melodia composta pelo trilheiro Danny Elfman - fiel colaborador de Tim Burton.

É também por causa do piano que a doce Victoria encontra pela primeira vez seu prometido Victor. E então percebe o quão conveniente poderá ser este casamento arranjado para os dois. Em “A Noiva-Cadáver”, assim como no clássico “Casablanca”, este instrumento é peça fundamental no destino de um triângulo amoroso.

E pra completar, uma justa homenagem é feita ao mais ilustre animador de stop motion: a marca do piano dos Everglot é “Harryhausen” (Ray Harryhausen, ainda vivo, foi responsável pelos efeitos dos filmes fantásticos de Simbad, além de “Jasão e os Argonautas”, entre outros).

Enfim, “A Noiva-Cadáver” come com farofa. Mas, infelizmente acaba.
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