AS TESTEMUNHAS:


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Original: Les Témoins
País: França
Direção: André Techiné
Elenco: Michel Blanc, Emmanuelle Béart, Sami Bouajila, Julie Depardieu, Johan Libéreau, Constance Dollé, Lorenzo Balducci, Alain Cauchi
Duração: 115 min
Estréia: 09/01/2009
Ano: 2007


As dores individuais sob as lentes e a compreensão de Techiné


Autor: Fernado Watanabe

Trabalho após trabalho, Techiné sempre retoma seus temas prediletos: a fugacidade das relações humanas, o homossexualismo masculino, a transição da adolescência para a idade adulta, entre outros. Mas sempre que seus filmes terminam, a sensação que fica é um misto de carinho e crueldade. Cruel, aqui, não como conceito que significa maldade, violência ou sadismo, longe disso; a crueldade do cinema de Techiné reside em mostrar as coisas como são, sem fantasias ou ilusões que ofereçam alguma possibilidade de transcendência ou de fuga. Curiosamente, seus filmes soam adocicados, nunca duros.

E este "As Testemunhas" é um filme dolorido. Revisita os anos 80, época do surgimento da Aids, e termina apontando para o futuro extra-fílmico, que já é bem conhecido pois já é passado (anos 90), ou mesmo para o atual presente (século 21). Toda a devastação e influência causada pela doença são fatos evidentes. O filme então não problematiza essa questão, ou, pelo menos, não faz uso dela como principal mote de sua existência. Muito já foi dito e estudado sobre a origem da doença, seus focos iniciais, as alterações sociais subsequentes, como a Medicina lida com isso, etc. O que interessa então é acompanhar uma galeria de personagens que viveram um trecho daquela época.

Todos eles com grande potencial de criar empatia com o espectador, potencial esse que é amplamente favorecido pelo trabalho de câmera: sempre próxima dos personagens, buscando antes suas expressões e gestos corporais do que enquadramentos espaciais demasiados estéticos. O privilégio do ator, a prioridade do ser humano.

Narrativa então extremamente ágil, mas sem que nunca pareça "chutada" de qualquer jeito, ao contrário, a rapidez das cenas e da sucessão destas, a agilidade nos cortes, a câmera extremamente móvel – mas sempre sabendo o que busca "olhar" -, tudo proporciona uma sensação de leveza, durante o filme inteiro. Temática grave, sofrimento e dor, mas sem o tratamento solene que seria a opção mais óbvia e que daria ao filme o peso do melodrama sentimental mais contundente. Mas, não se busca explorar os sentimentos dos personagens, mas, procura-se sim estar ao lado deles, compartilhar rápidos flagrantes fundamentais para a vida deles. Com uma dramatização de algumas cenas que vai até o limite do piegas, mas que nunca se deixa contaminar por essa "ameaça" oposta à noção de crueldade sempre à espreita e prestes a emergir com toda a força. Techiné, experiente, parece saber dosar e controlar tudo de maneira extremamente elegante e madura. Como exemplo rápido, na cena em que o filme explicita que a doença em questão é a Aids, isso é feito com um plano bem curto e de câmera solta, com o quadro flagrando um papel onde se lê "Aides". Ou seja, não se busca marcar nada de maneira exagerada, a dramatização exacerbada não é necessária. Um simples papel cujo conteúdo é o nome da doença mais radical do fim do século 20 já é doloroso e contundente. E a crueldade e habilidade do cineasta estão aí: alto interesse por seus personagens frágeis que não possuem outra saída que não a de continuar vivendo – esse aspecto humano impede que o filme seja uma mera visão determinista pré-concebida e manipuladora do que já se conhece. Mas, sua aparente leveza formal (câmera, cortes, atuações, tempos cênicos) acaba balanceando sua intransigência quanto à dura exposição das verdades concretas que sempre acabam por suplantar os sentimentos fugazes. Têm-se então essa sensação de ambiguidade sensorial, de não se poder definir com clareza esse "As Testemunhas" como filme que transmita essa sensação de dor de forma mais forte. Ao final, quando o barco parte rumo ao horizonte, sabe-se que ali foi o início do sofrimento causado pela Aids e que tudo só iria piorar. Por outro lado, a personagem de Emanuelle Beart consegue vencer seu bloqueio criativo e volta a escrever a partir das experiências de um dos personagens vítima da Aids – fazer arte a partir da dor, curiosamente um tema que também está explicitado no filme de Jacques Rivette, "Não Toque no Machado". E o filme transcorre de maneira agradável, sem maiores desafios à percepção padrão. Não seriam essas opções estéticas comentadas acima de algo que atenua o impacto do "mostrar as verdades"? Mas esse "mostrar as verdades" pode ser realmente honesto quando trabalhado via opções formais pouco (ou quase nada) distanciadas? Talvez a grande questão do cineasta seja o estar ao lado de seus personagens, tratando-os bem mesmo quando tudo vai mal? Afagando não somente os personagens, mas também o espectador? Apesar de tudo, o espetáculo ainda é necessário – como forma de conexão rápida com quem assiste ao filme? Ainda, será essa conexão "eficiente" um modo de introjetar seus personagens nas nossas mentes, tornando-os inesquecíveis, independente dos significados da narrativa? Essas são somente algumas das questões que o cinema cheio de minúcias de André Techiné suscita pensar. E tudo que tem vida nunca está livre de ser ambíguo.

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