O DIA EM QUE A TERRA PAROU:


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Original: The Day the Earth Stood Still
País: EUA
Direção: Scott Derrickson
Elenco: Keanu Reeves, Jennifer Connelly, Kathy Bates, Jaden Smith, John Cleese, Jon Hamm, Kyle Chandler, Robert Knepper, James Hong, John Rothman
Duração: 103 min
Estréia: 09/01/2009
Ano: 2008


Nova versão moderniza, potencializa efeitos visuais, mas esvazia discurso de clássico B dos anos 50


Autor: Fernando Oriente

“O Dia em que a Terra Parou” é um clássico da ficção científica dos anos 50. Dirigida por Robert Wise em 1951, é uma produção tipo B para os padrões hollywoodianos da época (período em que esse gênero de filmes não era tão valorizado pelos grandes estúdios), e que tinha seu ponto alto no forte discurso sobre a ameaça de um colapso nuclear em virtude da Guerra Fria. A nova versão que chega agora às telas, dirigida por Scott Derrickson, tem um orçamento muito mais generoso, estrelas no elenco, efeitos visuais caprichados e muita pieguice e clichês para tentar encobrir a ausência de conteúdo reflexivo e sua retórica capenga.

A nova versão tem suas qualidades todas no aspecto formal. A técnica do cinema atual norte-americano faz com que algumas sequências (como o pouso da nave alienígena ou a nuvem destruidora) e algumas soluções visuais (o aspecto do robô gigante ou a forma de esfera luminosa da astronave) sejam visualmente muito interessantes. Esse bom resultado é alcançado sem exibicionismo de efeitos especiais, mas com bom gosto. Outra qualidade marcante do longa é a beleza ímpar de Jennifer Connelly.

Mas o que compromete seriamente o filme de Derrickson é a pieguice e os clichês que vão tomando conta do longa. Sem a ameaça de um conflito nuclear iminente e sem a coragem de criticar a postura agressiva de algumas potências no mundo de hoje, o discurso crítico do alienígena vivido por Keanu Reeves à humanidade fica oco, reduzido a alusões sobre intolerância e uma possível postura destruidora do homem diante da natureza. Uma retórica ecológica? Nem isso a nova versão de “O Dia em que a Terra Parou” consegue desenvolver.

As limitações do diretor também comprometem o filme, principalmente se compararmos com o talento que Robert Wise mostra versão de 1951. Os bons recursos visuais da produção se perdem na incapacidade de Scott Derrickson em imprimir força aos planos e na maneira afobada como esses planos se sucedem. Essa afobação toda se enrosca na ausência de ritmo da maioria das sequências, em que a tentativa de se criar tensões esbarra na condução pesada e na atmosfera artificial que contamina as cenas. O resultado é uma ação truncada em que a alternância entre os momentos de ação e calmaria é pífia.

No filme de 1951 a grandeza está na opção pelo suspense e pela tensão, pelo clima de destruição iminente que no fundo é responsabilidade do estado de coisas em que o mundo se encontrava na época. Era um discurso forte, de apelo imediato. Wise é o grande artífice pelo resultado do longa, ele extrai o máximo de cada sequência, compondo a mis-en-scene com objetividade e elegância e com excelente posicionamento da câmera. Esses recursos garantem quadros em que a atmosfera de crescente suspense é absorvida de imediato pelo espectador.

Em “O Dia em que a Terra Parou” dos anos 50, o trabalho da luz na fotografia é um espetáculo a parte. Lá vemos como Robert Wise usa seu repertório trazido do cinema noir para atingir o máximo de significação das sombras, penumbras e ambientes escuros, nos quais o uso preciso da luz artificial emoldura e amplia os efeitos das ações e o estado de espírito dos personagens.

A nova versão do filme, com todos seus milhões gastos, é apenas mais um produto em série de uma indústria cada vez mais disposta a esvaziar o potencial discursivo do cinema de gênero. A pieguice no trato das sensações humanas e o abuso de clichês escondem a falta de talento e o desrespeito pela inteligência do espectador, que mais e mais é tratado por Hollywood como consumidor incapaz de exigir além daquilo que é “forçado” a comprar.

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Um caso onde a comparação se faz mais do que necessária.