A TROCA:


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Original: Changeling
País: EUA
Direção: Clint Eastwod
Elenco: Angelina Jolie, Gattlin Griffith, Michelle Gunn, Jan Devereaux, Michael Kelly, Erica Grant, Antonia Bennett, Kerri Randles, Frank Wood, Morgan Eastwood
Duração: 141 min
Estréia: 09/01/2009
Ano: 2008


Um exemplo de vários Clint Eastwood


Autor: Cid Nader

Numa cena que ocorre próximo ao final de “A Troca”, uma síntese da história do comportamento americano (do povo dos EUA) se representa na tela: Christine Colins (Angelina Jolie, numa interpretação que por um bom período da duração da película mostra que pode ser uma atriz acima da média) praticamente agride fisicamente o preso Gordon Northcott (interpretado de forma um tanto afetada por Jason Butler Harner), e lhe deseja o inferno como destino, numa última chance de encontro e confissão; Christine reage como uma mãe reagiria na situação desesperadora em que ela se encontra, ao cobrar ante um misto de possível esperança e raiva, ao desejar o inferno como fim para o bandido que crê nele (o inferno) e se mostra apavorado ante a possibilidade de ser esse seu destino, e mesmo sob tal pressão emocional, deixando seu senso de justiça cobradora e punitiva transparecer, como é de praxe no país e seu povo. Clint Eastwood tem um modo muito particular de enxergar esse comportamento na raça, fazendo dele um dos motes de construção de sua extensa obra, aditando-o com outras características inegociáveis que são a família como célula única e pura, e a exigência de um “Estado” que se comporte dentro dos padrões crus e justos que uma civilização forjada pelo protestantismo sempre nutriu como virtude inquestionável e inegociável. O próprio Clint sempre se revelou um protestante nesses quesitos, que para um país católico como o nosso parecem um tanto acima da média como manifestação de costumes e concretizações de atitudes do dia-a-dia: a saga da nação forjada sob a rigidez das leis, da religião e do clima duro que os tempos do velho oeste emprestaram à verdadeira pátria que nascia como é hoje, sempre forma de especial interesse a ele, desde os tempos de ator até o bendito momento em que resolveu tomar as rédeas dirigindo seus filmes.

Na realidade, “A Troca” é um verdadeiro produto de Eastwood (mesmo tendo ouvido algumas opiniões divergentes), e como tal, cresce e se instala com mais qualidade a cada momento que passa em nossas mentes – apesar de já surgir bastante potente desde os primeiros frames (como de praxe). Baseia-se numa história real acontecida no início do século (1928), e encontrada ao acaso antes que fosse eliminada numa queima de arquivos antigos, foi oferecida a Ron Howard, mas por sorte acabou nas mãos de quem deveria cair: o grande Clint Eastwod. Todas as características do diretor estão presentes nessa película, de forma mais facilmente perceptível (o modelo de edição plácido e sem solavancos, com algumas cortes e inserções rapidíssimos em momentos necessários – tomadas de dois, três segundos se alternando e evidenciando todo um momento preciso -, a câmera cuidadosa que privilegia ângulos do entorno emoldurando faces expressivas, essa mesma câmera se “apropriando” de algumas reações físicas e gestuais, com serenidade e sem “abruptamentos”, a utilização da música como algo a compor com o todo e não como uma linguagem exclusiva e afastada, sem falso virtuosismo, o carinho e cuidado pensados na formação dos personagens e a mão certa na sua concretização quando já em cena), e também lá no interior, mais intrincadas (sempre a manifestação do núcleo familiar como o principal e desejável para a manutenção da paz ante o todo, o estrangeiro e mesmo um Estado corrupto ou enganado – e no caso aqui um núcleo pequeno e rompido de forma brutal, formado por Christine e seu filho Walter, Grattlin Griffith -; a manifestação do senso de justiça plena que deverá surgir de algum modo, mas deverá surgir; o modo de “observar” das lentes que – sabe-se lá como – acompanha pessoas e seus sofrimentos, respirando com elas e quase fazendo materializarem-se seus pensamentos, elege cantos, janelas, pedaços de rua como significativos para a compreensão sem a necessidade de truques ou malabarismos...).

Por outro lado, o filme também foge um pouco à regra do que seria de se esperar na forma de construção narrativa usualmente realizada pelo diretor, ao entregar várias possibilidades e mudanças de características ou de centro nervoso – durante o transcorrer da história, vários núcleos vão se sobrepondo a anteriores e que pareceriam definitivos, criando a impressão de vários clímax, e adernando nossos sentidos quando já “apacientados” e crentes de que mais novidades não surgirão. Talvez essa modificação de expectativas e a as novas ansiedades que se instalam a dados momentos sejam o fator que tenham alterado a compreensão de alguns quanto ao que seria uma obra com assinatura indisfarçável de Clint. Mas vale lembrar que justamente essas possibilidades incontáveis que vão no assaltando vez por outra são o maior trunfo do filme, fazendo com que a obra autoral possibilite a idéia de que pode caminhar única, mas se abastecendo de “refrescamentos”, novidades boas. De dentro dessas “invenções” e novidades surge um momento exemplar para diferenciar um estilista fugaz e aproveitador de um gênio: num momento de violência executada contra crianças, a câmera desloca seu olhar para a sombra do que estaria ocorrendo (o que, em filmes de outros autores, significou exemplo de pirotecnia e exibicionismo falso, vazio, covarde); mas como o diretor realmente não é um covarde ou exibicionista, nos entrega em contrapartida a esse ato de utilização das lentes, a crueza de um enforcamento em quase toda a sua possibilidade agressiva: se Clint se permite criar “lirismo” num momento de choque extremo, se permite também contrabalancear esse lirismo com a verdade ostentada numa sequência. E se foge à regra “eastwoodiana” com alternância e intromissão de dados novos e falsos clímax, vai exageradamente às regras por ele executadas no decorrer do tempo, quando mostra dois julgamentos caminhando paralelamente, com seus desfechos se sucedendo sem intervalos na tela – uma coisa, que para mim, pareceu inédita -: isto é, o senso de justiça e rigidez de um povo protestante e que mora num país que exigiria isso como algo a não ser questionando jamais, se dá em dose dupla, para ninguém colocar dúvidas quanto à autoria da obra. Vale lembrar também do olhar frio (quase vingativo) que Christine Colins dirige a Northcott em seu cadafalso, e da contrapartida dele temendo o inferno e cantando insanamente “Noite Feliz” em seu momento último – exemplo do modo humano de Clint olhar ao mundo e aos seus personagens, e de fazer ver (mais uma repetição de autoralidade) que seu modo de enxergar um mundo regrado pelo núcleo familiar e pelo senso incorruptível de justiça não significam olhar pro lado em relação aos outros. Um autor rígido na obra, mas que se permite bons“deslizes”; rígido no modo de ver a vida, mas que é sempre um humanista, acima de tudo. Um filme que deixa transparecer Clint.

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