A BELA JUNIE:


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Original: La Belle Personne
País: França
Direção: Cristophe Honoré
Elenco: Léa Seydoux, Louis Garrel, Grégoire Leprince-Ringuet, Esteban Carvajal-Alegria, Simon Truxillo, Agathe Bonitzer, Anaïs Demoustier
Duração: 90 min
Estréia: 01/01/2009
Ano: 2008


Honoré faz belíssimo longa sobre o amor e seus tormentos


Autor: Fernando Oriente

“A Bela Junie”, novo longa do francês Christophe Honoré, é um filme sobre o amor, seus tormentos e seus deleites. É sobre a instabilidade e a transitoriedade dos afetos. Honoré aborda as contradições desse sentimento básico, que na maioria das vezes se manifesta em meio à impossibilidade de relações estáveis e a incapacidade das pessoas em serem fiéis. Usando a juventude de seus atores e a força que as paixões assumem nesse período da vida, o cineasta enfoca a passionalidade e a inquietude amorosa e sentimental de seus personagens. Com muita sensibilidade, o diretor consegue passar a sensação de ansiedade que envolve essas incertezas afetivas e tem o mérito de levar para a tela essa eterna procura por alguém, por “um outro” com quem se possa consumar a visceralidade dos desejos que move a todos nós.

A forte ascendência da Novelle Vague é evidente no cinema de Honeré. O cineasta francês imprime em seus trabalhos uma visão contemporânea a elementos fundamentais da estética criada por Godard, Rivette, Rohmer, Chabrol e outros membros egressos do Cahiere Du Cinema. Em “A Bela Junie”, como em seus longas anteriores (“ Em “Paris”, 2006 e “Canções de Amor”, 2007), vemos a liberdade da câmera e dos personagens; os constantes questionamentos das figuras dramáticas e seu desconforto diante das normas impostas pela sociedade; a juventude dos tipos (característica central da maioria dos longas pertencentes a primeira fase da Novelle Vague); além da câmera na mão e do ritmo ágil e leve dos planos. Entre todos esses elementos, a opção por uma poderosa verborragia e a qualidade dos diálogos merecem destaque extra.

Em seu novo filme, Honoré centra o desenvolvimento da trama em Junie, uma personagem forte, cujas complexidades e contradições são muito bem exploradas. Ela é frágil e insegura e seu aspecto retraído revela uma dor que carrega e que marca seu semblante e suas atitudes. Ao mesmo tempo, a garota é sincera e expressa (na maioria das vezes) seus pensamentos de forma direta. Com o desenrolar do filme, vemos que suas ações são pautadas pelo medo que tem de seus sentimentos e pelo receio de se envolver com alguém de maneira mais profunda e se machucar ao longo desse processo.

Honoré utiliza em “A Bela Junie” algumas situações comuns, que são compostas por ele com sensibilidade e contenção. O diretor trabalha elementos dramáticos básicos para abordar temas universais e com uma linguagem de câmera e de montagem competente consegue extrair muito vigor de cada plano e em todas as cenas. É um cineasta que chama a atenção pelo talento na direção e pela grande capacidade na condução dos dramas. A música, por meio de canções românticas e pops, também é destaque no longa. Ela aparece de forma pontual e discreta, mas também assume o papel de condutora dramática de algumas cenas.

Uma das principais qualidades do filme é o tratamento complexo que o diretor dá para todos os relacionamentos que encena, dos principais aos que envolvem personagens secundários. “A Bela Junie” apresenta a densidade que as relações entre as pessoas pode assumir quando retratadas por um artista talentoso como Honoré. Não existem no longa tipos desinteressantes, nem situações que não sejam bem exploradas.

A principal tensão do filme fica por conta da paixão que surge entre Junie e o jovem professor interpretado por Louis Garrel. A garota o abala de forma inesperada, faz com que se sinta atraído por suas características peculiares, que diferem do aspecto comum que envolve os prazeres e problemas corriqueiros das outras mulheres com quem ele costuma se relacionar. Ao mesmo tempo em que sua paixão por ela vai assumindo características atormentadas, Junie passa a representar para ele um novo tipo de ideal feminino, ideal esse embebido em sofrimento, fragilidade e ternura, aliados a uma dolorosa e irresistível sensualidade recalcada. O que ele vê nela é a sinceridade da juventude que teme estar perdendo.

“A Bela Junie” é uma adaptação cheia de liberdades do clássico romance “A Princesa de Cléves”, de Madame de Lafayette, um dos marcos da literatura francesa. As características que Honoré imprime em sua protagonista (que são tanto visuais como de personalidade) fazem dela uma espécie de heroína romântica, e algumas das soluções trágicas de certos personagens são elementos típicos do movimento romântico que o diretor traduz para seu filme com muita coerência cinematográfica. Esses recursos servem para enaltecer a força que o cineasta confere aos sentimentos que retrata.

Para Christophe Honoré, por meio de seu ótimo “A Bela Junie”, é muito difícil resistir à paixão, independente das conseqüências e apesar dos muitos aspectos racionais que imperam na sociedade. Mas o que acaba por nos condenar, na maioria dos casos, é o medo de viver um sentimento de forma plena e, principalmente, o receio da dor e do fracasso. Esse desconfortável paradoxo faz com que as pessoas prefiram a fuga e os relacionamentos superficiais aos desafios de viver (ou ao menos tentar viver) a plenitude e a sinceridade do que realmente sentem. No fundo, preferem uma dor mais suportável.

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