UM HOMEM BOM:


Fonte: [+] [-]
Original: Good
País: Reino Unido/Alemanha
Direção: Vicente Amorin
Elenco: Viggo Mortensen, Mark Strong, Jason Isaacs
Duração: 96 min
Estréia: 25/12/2008
Ano: 2008


Comum demais paea contar história de alienação.


Autor: Cid Nader

Parece que há uma intenção evidente em se mostrar – isso cada vez mais em filmes que tratam o assunto Segunda Grande Guerra – que nem todo o povo alemão foi conivente com as maluquices que o governo nazista de Adolf Hitler perpetrou e executou durante o período do conflito deflagrado por ele e com intenções realmente nada louváveis e que mancharam a história humana de forma inesquecível. Pensar na não anuência total do povo de lá às maluquices do Füher é coisa de razoável lógica para quem consiga enxergar tudo que ocorreu com um pouco de bom senso – tanto quanto é fácil entender a raiva e ira dos que estiveram envolvidos ou foram massacrados em forma de extermínio em massa por toda a nação, sem perceber as possibilidades de exceções. O próprio cinema foi um dos responsáveis pela unificação, pela monopolização da culpa da pátria como um todo, com os filmes que fez contando o sofrimento do povo judeu (mais especificamente), e de outros como os ciganos, por exemplo – valendo lembrar que na esteira da intenção de "arianização" da Terra, estavam árabes, negros...

Recentemente tem sido revelados casos de pessoas que agiram individualmente para tentar salvar algumas poucas vidas que fosse, ou de instituições que abriram suas portas o quanto puderam para acolher refugiados ou esconder perseguidos. Evidentemente que isso se deu também em próprio solo germânico, e executado também por "arianos puros", mas de pensamento humano dos mais abrangentes. Pensar no cinema tentando um "méa culpa" com a realização de alguns projetos baseados em histórias verídicas já é um passo a favor da intimidação da burrice vingadora ou simplesmente acomodada que se apossou por um bom período da maioria das pessoas, e que relegou uma nação inteira ao purgatório da dúvida – voltando a dizer, também, que houve evidentemente uma adesão em massa de boa parte dos alemães, e que acusá-los de, no mínimo, complacência com o que ocorria se fez bastante compreensível por um bom período. Mas o tempo faz com que todos olhem com mais calma para trás e percebam que casos bons existiram; e esse distanciamento temporal também tem permitido que essas histórias passem a fazer parte dos modos de expressão e de contar as coisas, inclusive dentro dos domínios das artes.

E entrando no campo do cinema para discutir o resultado que Vicente Amorin conseguiu com esse seu primeiro trabalho em língua inglesa, começo notando a complicação e equívoco que uma produção com tal intenção nobre sofre pela opção de contar seus fatos justamente na língua inglesa. Fica sinceramente difícil penetrar com boa vontade – boa vontade de avaliação de um filme, de uma manifestação artística – em "Um Homem Bom" ao se notar toda uma ambientação caprichada remetendo ao local e ao momento com os personagens berrando ou lamentando na língua de Shakespeare. Se a idéia era a de contar um fato de culpa, remissão, seria muito mais bem concretizada tal intenção se tivesse respeitada a língua natal dos envolvidos – acaba parecendo produto americano demais, mercadológico demais, e de boas intenções de menos.

O filme aposta forte nas ambientação familiar e no rompimento incontornável desse núcleo por conta de uma paixão súbita que acomete o professor universitário John Halder (Viggo Mortensen), no início das atividades nazistas de modo mais contundente e revelador. Amorin até tenta traçar um plano onde revela o que o movimento surgiu como uma opção política vitoriosa (escolhida pelo povo), e inicia sua história durante os momentos de indefinição mais evidente sobre se as atitudes seriam de teor político, ou se havia por trás de indícios as intenções cruéis que o tempo revelou. Mas nem sempre de boa ambientação pode viver o cinema, e o modo de contar essa história – as chaves encontradas, as predileções por sub-temas optadas, e as execuções formalistas (em muitos momentos uma câmera na mão totalmente desnecessária e fazendo o jogo do "vamos achar um foco sem pensar nele antes") – acaba revelando uma baixa qualidade reveladora de um não bom domínio do ofício por parte do diretor. Acaba resultando um filme comum (do estilo dos que acusavam a todos das mesmas culpas), meio com jeito de quer ser vendido como entretenimento fácil – mas camuflado. A cena final no campo de concentração talvez seja a mais importante, por fazer perceber – através da reação de um Haldler desbaratinado num campo de extermínio – que a história de um homem, alienado quanto ao que se passava no momento, sirva de metáfora ao comportamento de parte considerável de uma nação. Mas não salva um filme que caminha por fórmulas pré-concebidas.
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