UM CONTO DE NATAL:


Fonte: [+] [-]
Original: Un conte de Noël
País: França
Direção: Arnaud Desplechin
Elenco: Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni
Duração: 150 min
Estréia: 25/12/2008
Ano: 2008


A melhor competência do cinema francês.


Autor: Cid Nader

Diretor dos mais importantes da atualidade, Arnaud Desplechin já se sustentaria para sempre, como cineasta, se seu único filme tivesse sido o forte e belo "Reis e Rainha" (2004). Egresso do mundo da crítica cinematográfica, sabe como poucos fazer de suas idéias e estudos filmes concluídos com qualidade, invetividade, beleza, essência, estética primorosa, e domínio completo dos mecanismos. Em "Um Conto de Natal" o diretor vai ao fundo de todas as questões possíveis de serem exigidas quando um filme novo é assistido. O que ele consegue fazer nos quesitos montagem, câmera, som, são tão raros que o filme sofreria a possibilidade de ver sua história "perdida" ante tamanha capacidade, não fosse ela também assombrosamente bela e contundente.

A câmera de Desplechin tem identidade própria – quem viu "Reis e Rainha" não tem dúvidas sobre a autoria desse filme – e bela. O filme todo é imaginado para ser visto pelas lentes. A alternância de enfoques dentro de uma mesma cena se repete durante todo o trabalho, incessantemente, mas sem que tal execução exceda as possibilidades dos olhos que vêem o que se passa na tela: há surpresas nesses enfoques diferenciados dentro de um mesmo quadro, e há pertinência nessa sua insistência – pequenos detalhes tomam a vez em cena, em momentos em que tal imagem é mais necessária para contar algo do que a palavra, substituindo interlocutor ou objeto, por explicações ou sinais de algo que deverá dar fluência e continuidade ao que se faz contado no momento. Por vezes esse caráter de re-enfoque injeta alternância estética, mas nada gratuito: tudo colaborando para o ritmo desejado pelo diretor. Sua câmera também parece ter inventado um modo de flutuação, que faz das cenas momentos oníricos – sem que isso signifique apenas beleza e placidez de idéias, podendo ser responsável, inclusive, por momentos determinantes surgidos de questões cruciais na história -, talvez fazendo-se a maior marca (estética) registrada de seu estilo, juntamente com a sobreposição de imagens no momento de fusões e costuras. Aliás, ele usa em grande parte de sua edição tais sobreposições, evitando um excesso de procedimento comum que é a feitura de tais ligações via cortes bruscos e "costuras retas", rígidas, estáticas: um fator que além de significar também assinatura, impõe dinamismo e andamento sempre prontos a oferecer subsídios de informações dentro de entrechos que poderiam significar tempo morto e comum.

O visual de "Um Conto de Natal" impressiona o tempo todo, e isso pode até comprometer o ato de escrever sobre a história do filme. Mas vale ainda lembrar como ele é justo no modo de utilizar a câmera na mão, que procura a aproximação dos protagonistas em momentos absolutamente imprescindíveis, e pelo mecanismo através do qual tal procedimento é executado. Se a câmera treme e em tais ocasiões, fica evidente que a busca (o objetivo final, o alvo a ser encontrado) jamais é feita a esmo: a finalização de tais momentos, percebe-se, é toda fruto de desenho e esquematização - tudo pré-concebido -, e o que resulta invalida de vez o ato de utilização de tal possibilidade quando realizado por cineastas comuns e mortais. Arnau Desplechin também é muito do craque nas escolhas sonoras. Alterna momentos musicais e estilos, e abusa deles – algo até meio na contra-mão do que se faz comum no cinema atual realizado pelos melhores diretores -, emprestando momentos de paixão ao filme, e motivando as razões de seus personagens em seus momentos mais específicos. É raro o saber utilizar música e excesso dela dentro de uma obra sem fazê-la duvidosa, e ele o faz sem o medo do erro.

Voltando ao campo das imagens, ele também inventou um modo "confessional" ao seres de seus filmes – que utilizou de maneira espantosa em "Reis e Rainha" -, quando isola-os das cenas interagidas colocando-os contra um fundo definido e um vazio no entorno, abaixando a luz (a luz em seus files também é coisa a ser percebida e atentada), e fazendo com que falem verdades duras diretamente ao espectador, mas com o alvo a ser atingido por tal depoimento percebido de maneira óbvia, porém poupado desse choque frontal. Henry (mais uma atuação impecável de Mathieu Almaric) tem que enfrentar a irmã – Elizabeth (Anne Consigny) - que em um momento da vida isola-lo da família, e esse "embate" definitivo em momento do filme é feito sem que seus olhares se cruzem. As atitudes de teor oratório, o diretor resolve sem permitir o choque – e isso não é covardia, já que há inclusive socos e pontapés durante a ceia de Natal -, e essa não fusão das discussões possibilita isenção de quem assiste, e empresta igualdade aos envolvidos.

É história ser vista e ouvida ao invés de lida por linhas críticas. Mas fala de sofrimento familiar, surgido no momento em que a família começa a surgir para o mundo, com doença do primeiro filho acometendo a mãe bem lá no futuro, quando personalidades e ressentimentos já foram sedimentados pela "culpa" inicial; fala do destino traçando as possibilidades de cura vindas de quem mais sofreu por essa sedimentação cruel e involuntária; fala também de amor oferecido de alguém (a bela Chiara Mastroiani) para outro, e da possibilidade de descoberta disso anos após; coloca personagens tremendamente bem desenhados, à busca de soluções no momento enigmático que é o Natal. É forte e decisivo na história e nas suas soluções, ao mesmo tempo que concededor e esperançoso. Faz com que em três dias uma vida familiar inteira tenha a possibilidade de ser elucidada e discutida, e, obviamente,vai fundo nisso, longe de simplismos e esquematismos. É tão complexo e belo na construção da história, quanto o é no formalismo estético/técnico. Filme a ser visto, não lido.
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