GOMORRA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Itália
Direção: Matteo Garrone Matteo Garrone
Elenco: Salvatore Abruzzese, Simone Sacchettino, Salvatore Ruocco, Vincenzo Fabricino, Vincenzo Altamura, Italo Renda, Gianfelice Imparato
Duração: 135 min.
Estréia: 19/12/2008
Ano: 2008




Autor: Anahí Borges

O romance-jornalístico “Gomorra”, de Roberto Saviano , lançado em 2006, já vendeu na Itália mais de um milhão e duzentas mil cópias, e, traduzido em outros idiomas, já foi comercializado em 42 países. No livro, o autor, com então 27 anos idade, narra em detalhes a organização da Camorra Napolitana, mapeando nomes, destrinchando episódios ocorridos, fazendo balanços de finanças, saldos, cifras, vítimas. Diz-se que para conseguir o feito, Saviano foi durante anos um infiltrado e desde o seu boom editorial vive (sobrevive) sob escolta particular, mudando freqüentemente de residência. Quando o filme homônimo dirigido por Matteo Garrone foi indicado à Cannes este ano o escritor napolitano manifestou preocupação em ir ao evento e sofrer algum tipo de atentado surpresa. Pois é, com a máfia não se brinca. Por aqui se costuma comparar Paulo Saviano com o escritor indiano-britânico Salman Rushdie, que após publicar os seus “Versos Satânicos” foi considerado blasfemo pelos mulçumanos e jurado de morte por Aiatolá Khomeyni. Ambos os escritores condenados e perseguidos por afrontar sistemas dogmaticamente impermeáveis.

Em Cannes, o filme “Gomorra” foi contemplado com o Grande Prêmio da Crítica e, ao lado de “O Divo”, do também italiano Paolo Sorrentino, premiado com o Prêmio da Crítica no mesmo festival, virou notícia de capa nos dois principais jornais italianos: “Garrone-Sorrentino-Sevillo (ator em ambos os filmes) trio da maravilha: Nápoles no pódio de Cannes”, no Corriere della Sera; “O cinema italiano se redime”, no Repubblica, e o artigo versou sobre o ano de 1972 em que dois filmes italianos dividiram a Palma de Ouro: “O Caso Mattei”, de Francesco Rosi e “A Classe Operária Vai Ao Paraíso”, de Elio Petri.

A estratégia de lançamento de “Gomorra” e “O Divo” chamou a minha atenção porque foi bem diferente da que eu estava acostumada a presenciar no Brasil quando dos lançamentos de nossos filmes premiados. “Gomorra” estreou aqui em pleno Festival de Cannes: saiu nas salas com 400 cópias na sexta-feira, dia 16.05, exatamente dois dias antes da sua exibição oficial no festival. “O Divo”, de Sorrentino, estreou na quarta-feira, 28, exatamente dois dias depois de conquistar o prêmio francês. Ou seja, ambas as películas valeram-se da publicidade em torno das suas indicações e vitórias no prestigiado evento francês para alavancar um público de milhares de espectadores. Certamente a estrutura do mercado cinematográfico italiano para o seu produto interno é mais favorável do que a brasileira para os filmes nacionais. O market share italiano, por exemplo, é de cerca 18 a 20%, sendo que o brasileiro permanece geralmente na linha dos 10%. Talvez seja por isso que nós seguramos tanto os nossos filmes antes de colocá-los nas salas: a necessidade de percorrer festivais nacionais e internacionais, ganhar prestígio, credibilidade, para só depois o exibidor se convencer de colocá-los em cartaz e o público, de assistir a eles. Enfim, tudo para dizer que se no Brasil as estréias dos filmes brasileiros exibidos em Cannes (premiados ou não), “Linha de Passe” e “Ensaio Sobre a Cegueira”, são ainda incertas ou longínquas (o de Meirelles está previsto para estrear dia 12 de setembro e o da dupla Salles-Thomas ainda é uma incógnita) por aqui já pude assistir aos filmes italianos premiados em Cannes. Neste artigo pretendo falar de “Gomorra”, deixando para um próximo “O Divo” e Paolo Sorrentino.

No primeiro final de semana a bilheteria de “Gomorra” foi de 1.826.000,00 euros e até 1º de junho o filme já havia somado 6.630.000,00 euros (dados disponíveis no mymovies.it). O filme está sendo um fenômeno e dentre os tantos elogios que diariamente recebe está o seu pioneirismo crítico, isto é, finalmente um filme sobre a máfia que não a romantiza, pelo contrário, revela os seus aspectos sórdidos e desumanos. Claro que o público mais conservador se manifesta dizendo que “roupa suja se lava em casa”, retomando a antiga expressão utilizada durante o período do neo-realismo por muitos italianos descontentes com o fato de os filmes de Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Cesare Zavattini, Luchino Visconti, Giuseppe De Santis, Alberto Lattuada, Mario Soldati, Luigi Zampa, Alessandro Blasetti, etc, exibirem mundo afora imagens de uma Itália miserável e destruída. Mas o fato é que “Gomorra” vem sendo sucesso de público e de crítica e seus efeitos extra-fílmicos também estão se mostrando intensos – por exemplo, o debate nacional em torno à Camorra impulsionou o governo Berlusconi a enfrentar a trágica questão dos lixões irregulares em Nápoles (aterros sanitários clandestinos administrados pela máfia, que negocia com clientes estrangeiros um depósito a baixo custo para os lixos produzidos por eles). Dessa forma, ao lado de “Gomorra”, Berlusconi e o combate ao lixo ilegal que chega de toda a Europa a Nápoles também viraram matéria de capa nos jornais italianos nas últimas semanas.

O filme de Garrone possui uma estrutura crua, naturalista, que faz jus à linguagem jornalística do livro. Inclusive no final do filme alguns letreiros elencam os números comprometedores da Camorra: transações financeiras e a quantidade de pessoas mortas pela organização - jornalismo-político com nuances de didatismo. O movimento instável da câmera na mão que acompanha a personagem pela nuca somado ao elenco composto por napolitanos oriundos da própria comunidade são elementos que imprimem carga de verdade à encenação, aproximando a obra do cinema verité francês, ou, já que estamos falando de Itália, do neo-realismo italiano. Isso pode parecer banal para nós brasileiros, que bem ou mal, utilizamos majoritariamente locações reais, luz natural, enquadramentos e interpretações que recorrem ao naturalismo e temos uma produção cinematográfica marcada pela linguagem do “docudrama”. Mas na Itália do Séc.XXI, entretanto, a maioria da produção cinematográfica é realizada em estúdios e é marcada pela linguagem televisiva e pelo star system. Os filmes realizados são majoritariamente de gênero, transitando entre a comédia e história de amor. Poder-se-ia dizer que o cinema italiano está carente de verdade, na imagem e no tema, anda pálido, desprovido de brilho de sol na pele suada de não-atores. E “Gomorra” veio para isso, para arejar a produção italiana dos ácaros berlusconianos, trazendo para as telas itálicas um discurso político-social realizado com pessoas reais, em um lugar real e com a câmera instável que percorre esta cidade desamparada pelo Estado.

O principal problema do filme consiste no fato de possuir em sua narrativa diversos núcleos dramáticos que de alguma forma se correspondem ou se interceptam. Na difícil tarefa de adaptar um romance de 331 páginas e dezenas de personagens, Garrone optou por sínteses e entrechos entre personagens, porém, o modo como esses fios narrativos são dispostos na trama parecem casuais e acabam por deixar o espectador confuso e saturado de informações. À parte isso, nesta linguagem pautada pela velocidade da câmera, da mise-en-scénè e da montagem, Garrone alcança momentos cinematográficos de grande eficácia, como na cena em que dois garotos descobrem o arsenal de armas de um clã. A câmera inquieta muito próxima aos personagens cria a tensão de que um olhar onisciente da Camorra os vigia e de repente esses jovens saem deste barraco secreto correndo de calção pela areia da praia deserta. Como moleques com brinquedos nas mãos eles disparam contra o mar, pulando alegres, irresponsáveis. Armas de guerra. É um momento de liberdade e gozo para os personagens, e a alegria infantil contrastada com a violência adulta atribui à cena uma chave simbólica de rito de passagem. Matteo Garrone compõe em meio ao caos algumas cenas de respiro cinematográfico e composição geométrica que recuperam o seu estilo já fortemente distinguido nos seus dois longas-metragens anteriores, “Primeiro Amor” e “O Embalsamador”. Ambos os filmes são caracterizados por personagens psicologicamente frágeis, problemáticas e conflitos de ordem interior, drama psicológico, movimentos de câmera lentos e precisos, que buscam uma composição plástica no quadro. Certamente a velocidade em “Gomorra” é algo novo na carreira do diretor, contudo os valiosos momentos de respiro nos quais o lento movimento da grua percorre edifícios, janelas, grades e corredores recuperam os motivos visuais geométricos tão essenciais no imaginário de Garrone. E são, aliás, muito bem-vindos esses momentos de beleza porque afinal não é fácil acompanhar por duas horas seguidas uma história feita de agonia, corrupção e violência, assim, refletidas da realidade de uma nação. O público brasileiro que o diga, não?

Anahí Borges viu o filme em Roma, onde estuda cinema.

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