EU SOU JUANI:


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Original: Yo soy la Juani
País: Espanha
Direção: Bigas Lunas
Elenco: Verónica Echegui, Dani Martín, Laya Martí
Duração: 101 min.
Estréia: 12/12/2008
Ano: 2006


Velozes e pouco furiosos


Autor: Érico Fuks

Bigas Luna envelheceu mal. Se nos anos 80 era considerado uma promessa, aqui ele é a prova de que tem uma dívida. Naquela época, ele fazia uma dupla semântica e sintática com Almodóvar mais ou menos parecida, guardadas as devidas proporções, ao que hoje vemos em Robert Rodriguez e Tarantino. Em ambas as parcerias existe uma simbiose entre o bruto e o lascivo porém mal-acabado com seu complemento mais filosófico e mais bem digerido. Na maior parte de seu acervo, Luna ficou notório ao puxar para seu lado com muito mais sex appeal os conflitos psicológicos de uma sociedade jovem em crise, principalmente sob o ponto de vista feminino. Se temos a liberdade de chamar um dueto de, com certeza a carne ficava por conta deste espanhol em questão.

De seu legado cinematograficamente fálico e provocante, sobrou apenas o fetiche. Nem mesmo a metalinguagem sobreviveu. Aqui existe uma cena que promete uma relação mais dúbia e mais intrínseca com o cinema, mas que se fecha por si só. Cinema não é lugar para a transferência dos medos, para a projeção das neuroses, nem o palco ideal para a representação. Aqui, cinema é apenas um pulgueiro escuro para se dar uns malhos sem ser incomodado. Seria ríspido demais chamar o cineasta de velho babão, mas ficam evidentes as tentativas de construção de um universo calcado apenas na sua forma escultural. Disso, Luna entende muito bem. A escolha de casting foi bem acertada do ponto de vista físico.

A inversão da ordem dos fatores, com os créditos musicais aparecendo logo no prólogo, dão conta de que “Yo Soy...” é uma apologia ao videoclipe. Imagens cromaticamente saturadas exibindo street dance justificam essa proposta estética. Luna faz questão de mostrar que não ficou pra trás no tempo. Cenas intercaladas por sobreposições de torpedinhos de celular, roupas urbanas e ritmos musicais eletrônicos são o aparato visual que prova que o filme conversa com os dias de hoje. Mas isso tudo é apenas embalagem. O retrato social apresentado é dos mais retrógrados. Desde o pai alcoólatra até o dono de uma agência de modelos que pensa em se aproveitar sexualmente das candidatas. “Yo Soy...” parece um filme marombado de academia de ginástica: cheio de músculos, tão somente músculos. Rouba até o cenário das franquias de filmes de rachas de carro. Modelos de biquíni tomando esguichadas delineadoras de suas formas enquanto lavam os carros tunados e envenenados. Elas são o prêmio das apostas: quem ganhar a corrida, leva pra casa.

Luna dá seus indícios de que está pronto para assumir uma visão crítica em relação a seu recorte de mundo consumista. Há uma cena, talvez a melhor do filme, com cortes rápidos em várias lojas de shopping center. Isso traduz o conceito de que não importa o que está se comprando, apenas o hábito descartável em si. Voltar com sacolas cheias é o exemplo máximo da desvalorização do objeto. E esse reflexo impulsivo diz muito de um grupo que pensa da mesma forma hedonista em relação a seus planos de vida. Mas o diretor acaba mordendo sua própria isca. Ele não se assume radicalmente antagônico em relação a essas pessoas. Seu olhar concessivo acaba não colocando essa relação interna conflituosa como uma questão. O único estado de crise de seus personagens fecha-se na volatilidade do ir-e-vir, do mudar-não mudar, mas jamais numa reflexão introspectiva mais rica e mais ácida sobre a condição de seu estar-no-mundo. Há ingenuidade demais no diretor para estabelecer uma relação de impacto crítica e irônica com essa forma “moderna” e vazia de captação do mundo. Ou seja, no fundo Luna acredita em seu cinema-MTV.

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