GIGÔLO EUROPEU POR ACIDENTE:


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Original: Deuce Bigalow: European Gigolo
País: EUA
Direção: Mike Bigelow
Elenco: Rob Schneider, Eddie Griffin, Federico Dordei, Dana Min Goodman, Jeroen Krabbé, Vincent Martella, Kris McKay, Miranda Raison, Til Schweiger e Kostas Sommer.
Duração: 83
Estréia: 14/10/2005
Ano: 2005


Humor sirigaito e acidentado


Autor: Érico Fuks

Errar é humano, repetir o erro é Gigolô Europeu. Deslumbrado com o sucesso do improvável “Gigolô por Acidente”, que faturou quase US$ 100 milhões ao redor do mundo, Rob Schneider resolve protagonizar essa que Deus me livre poderá se tornar uma série, desta vez botando a mão também no roteiro. Se o precursor, embora sem graça, ainda mantinha um tom ingênuo da comédia, esse embuste resolve apimentar suas gags com doses reles e cavalares de mau-gosto.

Ingênuo e bem intencionado, o tratador de aquários Deuce Bigalow achou que sua carreira como gigolô estava encerrada. Entretanto, o panaca é convencido a voltar ao batente quando seu ex-cafetão, T. J. Hicks, é implicado nos assassinatos de vários rufiões do Velho Continente. Deuce tenta limpar o nome do amigo competindo contra a Sociedade dos Gigolôs Europeus e seduzindo um grupo de clientes disfuncionais.

Muito da graça das comédias se deve à sensação de espontaneidade e da criação de situações-surpresa. O humor físico, pastelão, característico dos cartoons e do cinema mudo de Chaplin, Buster Keaton, passando pelo Gordo e o Magro e muitos outros da era do preto-e-branco, abusava do corpo humano em prol da criação de uma série de desacertos e contrastes coreográficos. Esse anti-baile servia como fonte de questionamento e ruptura das relações entre os personagens e seus espaços na tela. Trata-se de um humor mais seco, mais instintivo, que faz rir assim como se ri de uma pessoa que tropeça na calçada, antes mesmo da reflexão sobre o acidente e sua desgraça em si. Já o humor verbalizado, tendo Woody Allen e Mel Brooks como alguns dos seus ícones, é quase a representação cênica da piada falada. Há ainda o humor pictórico, que ganhou notoriedade com os irmãos Zucker, onde se exige que se “preste mais atenção” a detalhes, a objetos que se “evaporam” em cena e não estabelecem relação nenhuma entre o antes e o depois. São apanhados de trocadilhos visuais, independentes e com um fim em si mesmos.

“Gigolô Europeu por Acidente” namora o primeiro estilo mas tenta, mal e porcamente, se aproximar mais desta última facção. É míope ao tentar localizar o gracejo natural e mastodôntico na imposição de seus elementos cômicos. Há uma forçação de barra tremenda em estabelecer, através de seus excessos e não de suas sutilezas, o que deve ser apreciado risivelmente, sem deixar ao espectador o mínimo de discernimento entre fluxo narrativo e quebra de paradigmas, o que deveria resultar na comédia.

Não bastasse a intenção ser decametralmente maior que o resultado, há uma série de situações que abusam do preconceito e da imaturidade. A cidade de Amsterdã é mais do que lugar-comum pra exibir um bando de drogados e a liberalidade da profanação. São piadas velhas, previsíveis, que nem se deram ao trabalho de entrar em processo de reciclagem.

Pior do que a risada por encomenda é essa incontida vontade de se aproximar do humor chulo e escatológico tão em voga desde os “American Pies” da vida. Por mais intestina que seja a anedota, exige-se um minúsculo esforço de bom gosto ao contá-la. Em “Gigolô Europeu”, não há sutilezas. Confunde-se o exercício de buscar o fator-surpresa pela artimanha suja e picareta de apelar pro nojento de tão improvável. Fica muito difícil encontrar graça numa cena de degustação de batatas fritas embebidas em água de vaso sanitário. Ao testar esses limites do desconforto, o filme afunda-se numa premissa pueril, tão ingênua quanto se ocultasse esse escárnio visual.

E por falar em preconceitos, o anti-humanitarismo sem dó é mostrado ao salvaguardar suas crias após enterrá-las. Por trás de uma mensagem pretensiosamente madreteresiana do tipo “Deuce fica com todas, sem distinções de raça, cor, credo e aparato ginecológico”, primeiro recorre-se ao escracho que assassina essas aberrações. Na lógica primária do filme, apenas as anomalias mal-nascidas recorrem aos serviços dos profissionais do sexo. Distúrbios obsessivo-compulsivos não são nada perto de uma sobrevivente do ataque nuclear de Chernobyl, que nasceu com um nariz em forma de pênis e, ao espirrar, adivinhem o que jorra.

Nem os ensinamentos do produtor Adam Sandler ajudaram na caracterização do physiqye du role de Rob. Mesmo fazendo o papel de sempre na pele de um abobalhado qualquer, Sandler ao menos entende seus personagens, identifica-se com eles, transmite verdade e carisma. Rob mimetiza trejeitos prontos, sem desenvolver qualquer nuance de personalidade própria. O ator confunde certos ares de incompreensão do mundo, sutis por natureza, preferindo o caminho fácil das repetidas caras de estupefação. Não há qualquer interação entre protagonista e elementos de composição de cena que seja minimamente proveitosa. Schneider congela seus músculos, caindo em estereótipos que nada lembram a soltura dos humoristas da cinédia.

Como conseqüência dessa série de engasgos cênicos e tropeços interpretativos, não há muito mais a se dizer desse acidental pseudo-trapalhão grotesco ao invés de hilário. “Gigolô Europeu” prova ser um filme bastardo, que abusa de um humor prostituto. Perto dele, o brejeiro e prosaico “Coisa de Mulher” é uma obra-prima.

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