O DEMONINHO DE OLHOS PRETOS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Haroldo Barbosa
Elenco: Nelson Freitas, Camilla Amado, Otávio Terceiro
Duração: 100 min.
Estréia: 12/12/2008
Ano: 2007


Adaptação de contos de Machado se perde no esquematismo e no artificialismo


Autor: Fernando Oriente

Diante de “O Demoninho de Olhos Pretos”, dirigido por Haroldo Marinho Barbosa, e de suas muitas limitações e diversos defeitos, é interessante notar que o longa possui uma característica pouco valorizada no cinema brasileiro hoje: honestidade. Se não uma honestidade plena, pelo menos uma clara intenção em se buscar algo honesto. O que difere o filme de Barbosa de outros tantos trabalhos feitos no país (dos quais muitos recebem um reconhecimento indevido) é o fato de que “O Demoninho...”, por mais que seja um equívoco e uma obra ruim, não deixa de pertencer à categoria dos projetos que não funcionam como produto final por motivos naturais a qualquer processo criativo. Não é fruto de um esquema de manipulação barata de elementos do cinema na tentativa de se fazer um produto audiovisual para consumo imediato e desprovido de sinceridade e autenticidade cinematográfica.

Adaptação de quatro narrativas curtas de Machado de Assis (publicadas no célebre “Contos Fluminenses”) o longa é marcado por um forte artificialismo, uma mis-en-scene equivocada e por várias atuações engessadas. As situações acabam contaminadas pela caricatura e o filme é vítima de uma “escravidão literária” que domina o roteiro e a composição das cenas. Mas o principal defeito de “O Demoninho de Olhos Pretos” é o esquematismo. Na tentativa de recriar o universo machadiano, Barbosa se perde na banalização das situações e não consegue captar as sofisticadas nuances propostas por Machado.

Os problemas do filme continuam na insistência em se encontrar “conselhos morais” no texto original, o que acaba por anular toda a ambigüidade e o cinismo de Machado. Outra falha que acaba por prejudicar demais o longa são as amarras entre os contos. Na intenção de criar um diálogo entre as histórias do escritor carioca com outras épocas e ressaltar a universalidade dos tipos criados por Machado de Assis, Barbosa constrói cenas caricatas, sem nenhuma densidade dramática e chega a flertar com momentos constrangedores.

A fruição dos planos é truncada e as cenas se arrastam em leituras muitas vezes maniqueístas e desprovidas de vigor narrativo. Por mais que se perceba uma tentativa de se trabalhar com elementos cinematográficos, o filme é vítima de certa mimetização de conceitos televisivos; principalmente uma estética de mini-série que domina a mis-en-scene. A escolha em compor o filme com quatro contos torna o longa ainda mais arrastado.

Haroldo Marinho Barbosa dirigiu “Engraçadinha” (1981) e “Baixo Gávea” (1986), que embora tenham suas limitações, são muito superiores a “O Demoninho de Olhos Pretos”. Em seus trabalhos anteriores, o diretor apresentava uma liberdade muito calcada na sensualidade e no apelo erótico, o que imprimia mais vigor e ritmo as situações. Em seu novo longa, a ausência dessa liberdade e o esquematismo anulam o fôlego no desenvolvimento das tramas e condenam o filme a uma dramaturgia rasa e a vulgaridade dramática.

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