MADAGASCAR 2:


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Original: Madagascar: Escape 2 Africa
País: EUA
Direção: Eric Darnell e Tom McGrath
Elenco: Animação
Duração: 89 min.
Estréia: 12/12/2008
Ano: 2008


Animação emblemática


Autor: Cid Nader

Até que ponto é válido pensar em "Madagascar 2" como desenho infantil – infantil no sentido de obra construída para falar com as criancinhas -? Conforme o filme inicia e avança – no início isso é perceptível ao extremo –, os diálogos engendrados pelos realizadores da animação vão sendo executados com uma velocidade e contundência de duplos sentidos tal, que até um adulto um pouco mais desligado terá dificuldades em captar seus verdadeiros significados e intenções: são diálogos recheados de sub-textos e sub-mensagens, onde se analisa a sociedade novaiorquina, por exemplo, ou onde se discute o poder exercido por reis, mandatários (típicos em seu non-sènse quanto à realidade e atípicos em se notando eles como seres semelhantes aos seus), ou ainda onde se percebe o invejoso tentando iludir o de alma nobre para benefício próprio já que não tem poder e estrutura natural para tal. Na realidade, creio que essa intensidade e complexidade no que é dito dentro do filme seja algo que coadune mais do que o resto todo com as idéias e modo de ver de quem o realizou, mas que se vêem abençoados por sua capacidade e têm a chance de concluir um trabalho que lhes dá o maior prazer, sem o empecilho da falta de investimento – muito ao contrário – e sem a urgência dos produtores pressionando para que tudo fique pronto o mais rápido possível em busca do retorno rápido e seguro do que foi investido.

Esse é um fenômeno recente que vem se repetindo no mundo da animação norte-americana em escala de grandes produtoras, que tem permitido idéias absolutamente adultas como as geradoras dos produtos, que tem permitido os próprios desenhos (em computador ou em stop-motion) representando figuras um tanto à parte do mundo fantasioso da era "absoluta/puramente Disney", e que tem obtido obras que ficarão marcadas como criadoras de um período emblemático. Emblemático, porque o que se pode concluir - com o investimento desmedido e o retorno garantido – é que parece que eles perceberam antes de quase todos o quanto as crianças d ehoje estão ligadas ao que se conta e ao que se sub-conta. Digo isso tomando como parâmetro a cabine em que assisti a "Madagascar 2", onde crianças puderam ser levadas por jornalistas, e onde notava, conforme a película avançava e os diálogos complexos eram jorrados, elas reagindo e rindo que para mim pareceria impossível imaginá-las "percebendo". Mais do que os maravilhosos tipos criados em computador, mais do que seus trejeitos (sempre bons, dinâmicos, engraçados), mais do que a esplendorosa reprodução da natureza africana (um trabalho que exigiu que muitos dos animadores e produtores viajassem ao continente, em busca de realismo e clima, o que, evidentemente, resultou em coisa boa) – fatos esses que facilmente seriam compreendidos tanto por adultos como pelos não tanto -, o que se falava na tela era o evidente primeiro responsável pelas reações exaltadas e capituladas dos imberbes.

Talvez seja até possível se imaginar tais reações como coisas brotadas pela naturalidade advinda da expectativa – anos esperando uma continuação, sendo alimentada pela constante revisão da primeira obra em DVD ou na televisão -, que não permite coerência e exige atos instantâneos. Talvez uma parcela das reações tenha vindo dessa "obrigatoriedade" em reagir; mas ouvi questionamentos quando algo não foi compreendido, ou quando palavras não foram reconhecidas. Portanto, justo imaginar que passemos pelo instante de mais proximidade entre o mundo infantil e o adulto. Até porque, se invertemos a mão, fica fácil perceber tal proximidade, diante da reação adulta a tal modelo de produto despejado cada vez em maior quantidade na praça, e fica fácil perceber essa aproximação, também, pela insistência dos realizadores e dos produtores (que é gente que não joga dinheiro pela janela) em realizar obras dirigidas ao todos esses segmentos.

Os personagens que já viraram ícones aparecem com carga forte nesse novo trabalho, mas há diferença da não estagnação no tempo físico, quando mostra-os envelhecidos (ou com as crianças "adultecendo") e aos seus problemas também continuados. As figuras todas têm características bem definidas e o fato de escolher pingüins para representar o lado daqueles que são mais chegados ao patronato e à exploração (sem falar na "quedinha" tarada do líder deles por uma boneca de pára-brisas), ou de colocar macacos como os mais chegados à possibilidade de serem, tanto malandros como capazes de se reunirem em sindicato para reivindicar melhorias, não significa necessariamente que cada animal tenha sido estudado para representar os da espécie (em vida) fidedignamente: se bem que o leão está lá mesmo como o rei de todos. As figuras têm características especiais, são geniais em sua criação (traços e índole), e participam de momentos que chegam a ser antológicos (apesar de tudo ou qualquer coisa, é filme no qual se ri do início ao fim): ver a zebra Marty se confundindo no meio dos seus lá na África, ou a "hipopótama" Glória assistindo a um ritual de sedução realizado por um macho enorme e gordo, ao som de música erótica negra-americana; reparar em Alex como o leão que jamais será o rei da África (no máximo o de Nova Iorque) e muito craque na dança, mas principalmente no impagável rei Julien (um lêmure, dublado genialmente por Sacha Baron Cohen)m com seus trejeitos afetados de pretenso rei, com criação e idéas de ex-colonizado, são coisas que se juntam às idéias e textos para constituir uma daquelas animações boas demais.

P.S.: só para se perceber a qualidade desejada nesses trabalhos, vou reproduzir um trecho das notas da produção, onde o diretor Tom McGrath explica a razão de terem contratado o craque Guillermo Navarro para participar da confecção: "um diretor de ação poderia nos ajudar a desenvolver uma linguagem mais cinematográfica para o filme. Navarro começou com uma aula de Introdução à Cinematografia para os produtores e a equipe, demonstrando como ele encontra as tomadas na filmagem de ação. A partir daí ele passou a compartilhar a câmera, pedindo que os alunos encontrassem suas próprias tomadas. Essa experiência livre tornou-se preciosa quando a equipe do filme passou para o computador, onde as condições consomem mais tempo e trabalho".

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