A FRONTEIRA DA ALVORADA:


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Original: La frontière de l’aube
País: França
Direção: Philippe Garrel
Elenco: Louis Garrel, Laura Smet, Clémentine Poidatz, Vladislav Galard
Duração: 105 min.
Estréia: 05/12/2008
Ano: 2008


O jogo de pensar a arte como arte.


Autor: Janaina Navarro

Paris atemporal. Dois mil e sete ou sessenta e sete, tanto faria. Não há celulares, não há emails. Há o impacto das palavras, que chegam sem enfatizar seu percurso. O que a gente fala fica marcado. Um revolucionário de porcelana tenta se refletir no espelho da burguesia. O que enxerga? Seus fantasmas? A si próprio? A verdade? Ou algo mais: algo impalpável, não material?

Voltando: um filme em preto e branco. Garrel não precisa provar nada a ninguém: tem o controle exato de todos os recursos materiais de seu filme. A precisão dos movimentos de câmera com o impacto que só a mais perfeita simplicidade poderia causar. Aproveitando cada sutileza de seus recursos disponíveis: o preto e branco pode se dar em diferentes chaves. Carole é cinza como a angústia; em uma longa paleta das mais diversas tonalidades desse mesmo cinza, nítida em sua falta de contraste. Como uma musa de Bergman, como uma estrela em close. François alcança o preto mais preto em seus cabelos e o branco mais branco em suas roupas. O ritmo da relação é trôpego. Carole brilha contra a luz e François a fotografa. O ápice de cada momento é entrecortado por tensões e frustrações. Carole se banha e François a fotografa. Assim não. Carole bebe e François se enciuma. Um meticuloso vai e vem intrépido e moroso. o desfecho é trágico.

Como num romance naturalista - inevitável lembrar, por exemplo, de Zola em seu Thérèse Raquin, onde o casal de amantes, após matar aquele que os impedia de estar juntos, passa a ser assombrado pelo corpo decrépito do morto -, vemos o desfecho do amor se perpetuar em sua disseminação cotidiana. Carole não importava para François enquanto estava viva prestes a se matar, mesmo que ele a tenha sentido de longe. Carole passa a importar no momento em que ela se torna uma promessa irrealizável, uma possibilidade de sair do caminho da mediocridade - o que ela não necessariamente seria. Carole passa a ser parte do imaginário de François. E é nesse campo que as coisas tomam sua maior potência: num campo imaterial, no campo das idéias. O que poderia ser ou ter sido é mais importante do que o que é e o que não foi.

E é nesse mesmo campo que as aspirações políticas e ideológicas se dão, onde existe a objeção à felicidade burguesa, ao fascismo. Ao que tudo indica, é o subconsciente de François, somado às suas aspirações ideológicas, que o atormenta. Cada passo desse tormento é belissimamente calculado por Garrel. François sonha com Carole e com as mesmas roupas e a mesma iluminação (uma luz direta, frontal, que quase a retira do espaço físico do sonho). E Carole o assombra no espelho. O espelho é um espaço decisivo. Ao pegar um pequeno gatinho na rua, François o coloca em frente ao espelho e pergunta se ele se reconhece. O gato não se vê ali refletido. O mesmo acontece com François.

Os elementos apresentados já poderiam ser suficientes para compor um filme de singular interesse. A idéia do indivíduo ver no espelho não seu reflexo mas traços de seu subconsciente é bela e profunda. Remete instantaneamente à psicanálise, a Lacan. O espelho que é o outro mas que, ao mesmo tempo, não deixa de ser nós mesmos: nossas projeções, nossas expectativas. O espelho é aquilo que François admira e deseja em sim próprio, projetado em Carole. Um medo que é desejo. Há ao mesmo tempo, a presença da psicanálise do materialismo histórico; a alucinação é uma forma quase palpável do subconsciente, um indício concreto, de certa forma, de sua existência. Um subconsciente que não se cala perante a acomodação material burguesa, um subconsciente permeado pelo peso da história.

Ao fim, a morte de François é retratada com brilhantismo e leveza. Belos planos, poéticos e diretos. O som de François, à distância, abrindo a janela. A mesma janela, vista de fora, balançando pela inércia do movimento brusco e, por fim, François estatelado na rua, sem qualquer traço de transcendência, apenas um corpo "matérico": pesado e imóvel.

Mas a equação não pára por aí. Algo é secretamente revelado àquele presente no quarto abandonado. O espectador se vê cúmplice de algo que ninguém mais sabe. Carole não está mais no espelho, tampouco François junto a ela. Ao invés disso, vemos uma besta, um demônio caricatural. Quem seria esse? Uma representação das trevas, do além, do metafísico? Uma força maléfica que move os homens? Nada contradiz qualquer uma dessas hipóteses, mas talvez a dita besta seja mais do que a representação de algo surreal, alheio a uma suposta realidade que compete àqueles personagens. Talvez seja o momento que o filme transcende a si e se declara como filme. Um momento em que a arte se anuncia como arte. O demônio é alegoria, citação. Poderia até ser visto como o materialismo histórico posto em questão. Mas acima de tudo ele é uma afirmação: uma afirmação de que o universo da arte não se regra pelos padrões do mundo "real". Novamente Garrel rememora Bergman, que, em suas representações carnais de seres de outro mundo, alcança este terreno psicanalítico, metafórico e alegórico, colocando o espectador num lugar por vezes nostálgico e assustador, de memórias e afetos criados por elementos do próprio cinema. Monstros que vêm tanto de nossa imaginação quanto do efeito da cultura sob ela. E Garrel brinca tanto com essa presença quanto com a do espectador, a qual compõe uma relação que pode trespassar o limiar do que concerne a história presente no filme. Uma brincadeira bem feita, que em momento algum subestima seu espectador: pelo contrário, espera que este aceite o convite a esse novo jogo. O jogo de pensar a arte como arte.

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