O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Portugal/Brasil
Direção: Jorge Paixão da Costa
Elenco: Ivo Canelas, António-Pedro Cerdeira, Bruna di Túlio
Duração: 102 min.
Estréia: 28/11/2008
Ano: 2007


Folhetim no cinema.


Autor: Cid Nader

Mais um filme português na praça. Como tenho dito sempre: cada vez em maior quantidade, e cada vez mais surpreendentes pela diversidade de modos de abordagem, de modos de construção, narrativa e até assuntos. O mais interessante nessa cinematografia incessante do país irmão é que os motivos e questões para confecção de novos trabalhos parecem ter vida e razões muito particulares, e nossos irmãos além-oceano têm cada vez mais desfeito a imagem que temos de um país careta, bastante apegado à religião e bons costumes, e de pouca atenção a um saudável desalinhamento construtivo no quesito artes (cinema e afins, incluídos).

Diretor: Jorge Paixão da Costa. Filme: "O Mistério da Estrada de Sintra". Estilo: filme de época (1870). Roteiro: baseado em autores tradicionais – Eça de Queirós e Ramalho Urtigão. Com todas essas pré-informações, e adicionando-se ainda a informação de que é produção portuguesa – fosse eu um daqueles que não acompanha as surpresas que o país embarca para cá –, o temor por obra careta, reta, "coerente" e chata, me faria evitar a possibilidade de conhecê-la. Sendo eu um outro que não daqueles, nada de assustador me fez impedir o acesso à sessão para a imprensa – nem mesmo algumas informações anteriores que diziam tratar-se o filme de um trabalho ruim.

Certo e honesto é dizer que Jorge Paixão não está lá tão próximo da genialidade e segurança de Manoel de Oliveira, ou João César Monteiro – heresia é outra coisa, e pode levar ao inferno -; mas honesto e certo também é citar que seu filme tem muita imaginação de roteiro - boa confecção estética para adeqüar o que há de mirabolante e inventivo nele -, boa e satisfatória resolução de uma obra altamente literária (se bem que em formato de folhetim) que é, sábia e engraçadamente, transportada para a tela, e que faz dela o grande mote condutor e o grande achado do filme. Quando a película começa a embaralhar os escritores e seus escritos à trama filmada – que, no caso, está aí para nos substituir a leitura na folha -, percebe-se que de falta de imaginação o diretor não morre. Há um vai e vem que nunca, nunca, empresta certeza quanto à possibilidade dos retratados pelos escritores estarem em momentos de imaginação pura, de fantasia, de algo haver realmente ocorrido... E isso é um ponto bastante positivo a uma obra que se propõe meta-filme ou meta-literatura (ou os dois, afinal).

Algumas atuações talvez deixem a desejar – junto com uma certa insistência na repetição do tema musical -: principalmente a do militar inglês por quem a mocinha e a devassa se apaixonam. Mas estou tendendo a crer que até esses poréns talvez configurem parte da proposta do filme. Pois justamente na parte folhetinesca do filme é que a música se torna mais "over" e as atuações canhestras mais perceptíveis. Seria de se imaginar que isso faça parte da proposta do diretor. Sinceramente. Daí ter sentido que um filme interessante foi visto. Novamente explicando que está longe de ser obra imprescindível, mas também longe de ser descartável.

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