DESERTO FELIZ:


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Original: IDEM
País: Brasil
Direção: Paulo Caldas
Elenco: Nash Laila, Peter Ketnath, Hermila Guedes, João Miguel, Zezé Motta
Duração: 88 min.
Estréia: 28/11/2008
Ano: 2007


Paulo Caldas abandonando suas virtudes na busca equivocada das dos outros.


Autor: Cid Nader

Sob o pretexto de falar da prostituição infantil como um dos males que atingem fortemente o nordeste turístico o diretor Paulo Caldas - que tem uma obra bastante interessante e, principalmente, original, com filmes que fizeram história em seus momentos, "Baile Perfumado" (1997, "O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas" (2000) - abandona um passado de autor autêntico para mergulhar com esse "Deserto Feliz" num redemoinho que mistura filmes que buscam um choque extremado misturado a um excesso de naturalismo (hiper-artificialismo, isso sim) na caracterização de personagens e suas interpretações. É algo semelhante ao que tentam "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas" de Cláudio Assis, ou "Cidade Baixa" de Sérgio Machado - e estou aí citando filmes nordestinos como o do pernambucano Paulo Caldas -, ou ainda o paulistano "Contra Todos", de Roberto Moreira.

O estranho é que esse "modismo" agrada uma parte da cinefilia mais engajada, que vem comprando gato por lebre sei lá até quando. É assim: no início o filme exacerba as situações, as faz feias e ostensivas com a evidente intenção de carregar para dentro de si os que querem crer na honestidade do que ele "grita"; os personagens surgem sempre como seres muito pouco comuns ao usual - como se o ser humano estivesse se revelando uma espécie somente doentia, sem resquícios quaisquer de normalidade (e é a mais pura verdade que constato isso nesses filmes que citei, e que pessoas acreditam que essa seja a regra) -, com traços estranhos, cabeças complicadas. Só que apresentar isso - por parte do diretor - como fato de "denúncia" do filme, sucumbe gravemente quando ele não se furta à imagem da sombra "esteticamente" bem captada de uma parede num cômodo de uma casa simples, em plano que se encerra com feixes de luz entrando por frestas na janela da cozinha, sobre o fogão que nubla o ambiente. Essa feiúra humana, quase sempre e quase invariavelmente, vem sacudida por lentes que balançam grudadas a corpos suados, rostos "comuns" e sujos, com focos sendo procurados, mas sem deixar de se fazerem notadas nessa "angústia" pela imagem a ser captada.

Outra coisa comum é mostrar cenas de sexo que jamais exprimem prazer; ao contrário, revelam sofrimento, nojo, aversão, "pecado", e no início o diretor ainda abusa numa seqüência em que a câmera parece grudada de verdade nos corpos, resultando um efeito que poderia até ser a primeira novidade boa, mas que ainda não me convenceu. Mais especificamente falando do resultado do trabalho individualmente - como se ele não fizesse mesmo parte (ou não quisesse honestamente isso) da quantidade de filmes similares nas "baixas" intenções -, a história tira Jéssica (Nash Laila), quinze anos, abruptamente de sua casa disfuncional, para jogá-la sem opção no mundo bravo e cruel da prostituição. Antes, já denunciava tráfico de animais silvestres, e o ruir de um lar é o mínimo que se poderia esperar como seqüência.

Com ar de seriedade, o roteiro tenta se vender como um denunciador. Quando o filme investe mais fortemente na prostituição da garota, preenche as lacunas com clichês comportamentais, com clichês de cenários, e com cenas pra lá de clichê (drogas, estrangeiros...). O diretor quase nunca procura o frescor que sua carreira anteriormente nutriu, e embrenha-se de vez na "sujeira" resquicial sobrada de outros. Quando tenta algo mais ousado por um viés próprio (muito pouco), obtém resultados estranhos: várias vezes a câmera é conduzida pelo personagem filmado. Mas tem beleza nos momentos europeus, quando parece acomodar-se e ceder à necessidade da urgência no tempo de filmar. E tem até um pouco de humor quando do surgimento dos dois alemães comentando a placa que adverte quanto ao perigo de tubarões na praia. De bom só isso.

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