REDE DE MENTIRAS:


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Original: Body of Lies
País: EUA
Direção: Ridley Scott
Elenco: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani
Duração: 128 min.
Estréia: 28/11/2008
Ano: 2008


Ridley mente e obscurece seu real potencial


Autor: Cid Nader

Por vezes tenho muitas saudades dos tempos do Ridley Scott dos tempos do cult "Blade Runner - O Caçador de Andróides" (lá do distante ano de 1982), onde sua fama de diretor de imagens vazias e de tendências "publicitárias" ainda não se havia instalado além mais do que em uma meia dúzia de fanáticos - vale lembrar que o filme virou cult já na época, e mesmo visto sob olhos mais rigorosos em tempos atuais ainda consegue sobreviver (e bem) a rancores, perpetuando com dignidade a marca de um trabalho que marcou e carrega a marca de uma época. Vale lembrar, também, que mesmo aqueles que já apontavam para o diretor com dedos em riste e nervosos, ainda conseguiam cultuar o seu filme anterior, "Allien, O Oitavo Passageiro" (1979), e muito mais ainda o bem menos conhecido e maravilhoso "Os Duelistas" (1977 - isso já há mais de 30 anos). Percebe-se que Ridley teria, no mínimo, três filmes para serem lembrados e respeitados como marcas - de estilo que seja - na história do cinema (no mínimo, pois há ainda alguma sobras que podem causar boas discussões, mesmo entre cinéfilos e críticos mais radicais).

Hoje em dia ele parece ter caído num mundo de onde nada de bom ou relevante sobressairá. Não que tenha perdido a "mão estética", digamos assim - pelo bem e pelo mal -, mas é que os filmes que faz agora, parecem mesmo um denunciador de seu "potencial" e ideal de cinema. Em "Rede de Mentiras", um monte de coisas revelam o verdadeiro Ridley. O filme faz perceber que o diretor acena ostensivamente para o público como aquele que sempre continua sendo um dos primeiros a utilizar o que há de mais moderno na dinâmica das criações e possibilidades de ferramentas que façam a "diferença técnica" (estética). Se isso caiu bem nos seus momentos iniciais, talvez se deva à boa percepção na época de que esse manuseio "exagerado" na construção formalista de um filme ornaria muito bem com trabalhos do mais puro padrão ficcional (ainda mais em se tratando de ficção científica). A partir de um dado instante ele resolveu fazer filmes "sérios", com engajamento político como mote - por vezes -, com resultados que somente fizeram sobressair seu interesse nas "modernidades" e nas novas possibilidades, ante fatos que mereceriam comportamento mais comedido para serem "bem comprados" como oriundos de alguém realmente interessado no que falava e filmava.

Não consegui engolir a cara de Leonardo de Caprio tentando fazer de seu personagem dúbio na sua gênese (o agente da CIA, Roger Ferris) alguém típico a ser observado - com todos as nuances possíveis que deveriam emanar dele. Como também ficou bastante na superficialidade a outra pessoa importante da película - que deveria ser encrencada aos nossos "olhos puritanos", pelas suas decisões e pela sua função dentro de um órgão que procura somente o bem da instituição EUA, que é a CIA - que é o agente Ed Hoffman (Russel Crowe). E se os personagens não funcionam a contento como imprescindível sustentáculo num filme que "ameaça" com denúncias contra métodos, antes de pensar nas limitações dos atores (que por vezes funcionam bem em outros trabalhos, mas que também carregam em si a "mania" de construírem figuras que agem no "controle remoto" - e no caso desse filme não há acomodação evidente deles), para mim ficou claro que a intenção de Ridley na ostentação de suas virtudes e pioneirismos técnicos foi o suficiente, e a razão, para desacreditá-los.

O que tem ficado notável com o passar dos tempos é que mesmo que se acreditasse nas boas intenções do diretor quanto à escolha dos temas que tem optado, o seu pendor ao esteticismo ainda é suficiente razão para que todo o entorno e interior de seus trabalhos sejam meros coadjuvantes - e não as razões de ser. Além do mais, para quem imprime tanta força ao lado visual de seus trabalhos, Ridley talvez não seja o melhor exemplo de boa câmera e bons enquadramentos - evidente que edita muito bem, mas aí seria total barca furada não fazê-lo com justeza já que opta por seqüências "mais de parafernálias e computadores do que de mãos e olhos". Além do mais, desde "1492 - A Conquista do Paraíso" (1992), o homem se encantou com o efeito do sangue que jorra dos ferimentos, espirrando para a câmera como se fosse uma jóia brilhando no meio de um lamaçal. É uma autor de grife, e talvez estivesse num outro patamar de admiração caso encarasse esse seu "dom" como algo a ser cultivado e explicitado, sem medo de ser feliz e sem medo de ser taxado de alienado.

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