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Original: Burn After Reading
País: EUA
Direção: Ethan Coen/Joel Coen
Elenco: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Brad Pitt, Tilda Swinton, J.K. Simmons, Richard Jenkins, David Rasche, Olek Krupa
Duração: 96 min.
Estréia: 28/11/2008
Ano: 2008


Este não é um país para velhos, mas um país de idiotas


Autor: Anahí Borges

Depois de “No country for old men”, 2007, que no Brasil foi lançado com o título “Onde os fracos não têm vez”, os irmãos Coen voltaram à tona com “Burn after reading”, um filme de humor negro abrilhantado que dá continuidade a sua intrigante mise en scène de problematização da sociedade americana. “Burn after reading” foi escrito contemporaneamente à “No country for men”, mas a proposta dos autores é que tal obra conclua a “trilogia do idiota” dedicada a George Clooney, composta por “E aí meu irmão, onde está você?” (2000) e “O amor custa caro”(2003).

Os irmãos Coen colocam em cena de forma extraordinária não somente um George Clooney idiota, mas um John Malkovich cretino e decadente e um Brad Pitt surpreendentemente estúpido. Uma gama de personagens insólitos e imprevisíveis cunham um discurso crítico contra a sociedade de consumo, a fugacidade das relações modernas, a inutilidade da tecnologia à serviço do homem e a insignificância e incompetência da CIA (que no filme é retratada de maneira explicitamente ridícula). George Clooney interpreta Harry Pfarrer, um agente federal casado e sedutor de mulheres; Brad Pitt é Chad ,um trainer de academia que chantageia um ex agente da CIA (John Malkovich) após encontrar um cd contendo seu memorial secreto. Além deles, brilha no elenco Frances McDormand (esposa de Joel Coen) que interpreta a colega de Chad, uma mulher solitária, que marca encontros com homens pela internet e tem idéia fixa de fazer uma cirurgia plástica. Todos estes personagens possuem tiques e toc’s, e em diversos momentos suas neuroses particulares são ressaltadas propositadamente. Brad Pitt, por exemplo, ou mesmo Clooney, transportam-nos a situações hilariantes através de seus gestos extremos de demência, mas coerentes com a proposta dos Coen: de ridicularização do cidadão americano médio.

Evidentemente a complexidade de tais personagens está no fato de que simbolizam e representam mais do que eles mesmos. São personagens metonímicos que sustentam uma narrativa cheia de níveis de leitura, que surpreende pela imprevisibilidade das situações e comportamento dos protagonistas e pela casualidade do entrecho entre elas. Momentos de humor-negro e cinismo retórico são intercalados com cenas de violência e comédia-quase-pastelão, oferecendo ao público uma imersão de duas horas em um quadro tragicômico da sociedade contemporânea. Além disso, poderia dizer que o filme também é uma releitura irônica do filme de gênero de ação. Nada funciona no projeto criminal dessas personagens, a violência é apresentada como casualidade, gratuidade e engano cometido por seres humanos incompetentes, inaptos, atrapalhados. “Burn after reading” é a incapacidade de personagens idiotas serem gânsters. Mas o filme apresenta, fundamentalmente, a idéia de que a sociedade americana é idiota, neurótica, violenta. O tema do controle e da mania de perseguição permeia esta obra dos Coen, que voltaram para concluir o porquê dos Estados Unidos não serem um país para velhos...

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