TERRA VERMELHA:


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Original: Birdwatchers - La Terra Degli Uomini Rossi
País: Itália/ Brasil
Direção: Marco Bechis
Elenco: Taiane Arce, Alicélia Batista Cabreira e Chiara Caselli
Duração: 108 min.
Estréia: 28/11/2008
Ano: 2008


Pra gringo ver?


Autor: Cid Nader

Os dois garotos que fazem a dupla jovem de "Terra Vermelha" poderiam remetê-lo a trabalho saído da cepa de Gus Van Sant. São índios na realidade - da tribo dos Kaiowás - do Brasil. O Brasil é tão distante fisicamente e climaticamente dos Estados Unidos quanto jovens índios deveriam ser de adolescentes americanos imersos em seus problemas modernos. Mas quando digo que poderiam ser personagens imberbes do diretor ianque, é porque são fisicamente parecidos, andam de modo parecido, têm preocupações e curiosidades parecidas, e sofrem do grande drama moderno entre esses seres que iniciam a vida adulta que é do falta de perspectiva, que remete a atitudes drásticas - pode ser o suicídio, pode ser o assassinato em "massa" (pequenas chacinas que povoam as histórias de desiludidos norte-americanos. As primeiras imagens do filme de Marco Bechis surpreendem pela beleza plástica obtida imagem de índios sobre uma árvore, mas me chamou mesmo a atenção as figuras dos garotos com jeito "moderninho e largado". Daí ao primeiro passo mais chocante - provavelmente o mote que deve ter despertado o desejo do diretor - que é a descoberta de duas jovens índias enforcadas: se enforcaram, se mataram, repetindo um fenômeno que vem se alastrando entre os nossos nativos jovens, mas repetindo também um fenômeno de desesperança mundial primeiro-mundista. Essa relação de similaridades talvez seja o grande trunfo do filme, por revelar o quanto as idéias circulam pelo planeta, o quanto um comportamento daqui pode ser semelhante ao de lá, e o quanto a reação intempestiva causada pela inocência é ato mais de teor humano do que de modelos de civilização/cultura.

Mas o filme não se restringe a essa avaliação - nem sei se conscientemente existe essa intenção -, partindo com um mote mais evidente e de fácil assimilação (de fácil empatia, de fácil agregação de opiniões) à busca do que se comenta no mundo todo em dias de caos climático e de previsões nefastas quanto ao futuro do homem: "o quanto o Brasil desrespeita seus nativos e suas matas". Há uma primeira reação involuntária e negativa quando estrangeiros vêm dar pitacos nesse nosso enorme problema, por conta do que eles fizeram já bem anteriormente com seus nativos e suas matas: a destruição cristã na Europa Medieval, todos os desatinos dos Mundos novos, enquanto, mal ou bem, talvez ainda sejamos o único ponto do planeta onde os "da terra" mantém características muito mais preservadas e identidade geográfica com seus rincões (nossos índios ainda moram nas poucas matas - alguns em reservas, ok - que restam e são facilmente identificáveis em meio ao todo social: não foram emaranhados de modo homogenizador pela nossa sociedade como aconteceu em quase todo o mundo). Mas, conscientemente, reagir intempestivamente contra tais pitacos, parece ser reação mais do ato pensado, e seria um modo de cerramento de olhos aos nossos enormes erros: aceitar essas interferências, longe de parecer atentado a "soberanias nacionais", deveria ser encarado com atitude humana arrependida - e deve-se pensar na possibilidade de redenção em busca de alguma salvações (o clima do planeta agradeceria e a humanidade com novas chances, também) -, o que poderia sugerir novas possibilidades aos nossos nativos, inclusive.

Aceitando tais interferências, passando a compreender que há boa vontade por muitas vezes nisso, percebo também que o diretor Marco Becchis até fez um filme bem intencionado pelo pressuposto do mote maior citado acima. Algumas situações são interessantes no trabalho: a integração das atuações - entre atores e índios - cria um clima interessante de manifestação antropológica; a revelação imagética dos contrastes entre campos plantados que invadiram a floresta também é pertinente; as interações entre as culturas (há desejo sexual, há curiosidades que são buscadas) é bem honesta; o assunto suicídio e como se percebe ele nas reações dos pais indígenas é forte e revelador; a reação dos índios ao trabalho "ao modo branco" também é de bom desenvolvimento antropológico. Mas como falei do mote geral - e partindo para o que provavelmente atrairá a maior atenção das platéias (e ousando e pensando que na cabeça do diretor talvez isso seja o mais forte na história) -, as partes mais atuadas, mais dramatizadas que conduzem o filme à invasão das terras, à violência dos brancos contra os índios, às proibições e à intolerância, enfraquecem bastante a trama e possíveis intenções nobres. As situações "brancas", que revelam o modo do estrangeiro de se preocupar quando ditado por cartilhas de boas intenções, fazem com que as várias boas sacadas tiradas de observação e de um razoável entendimento de algo da cultura guarani-kaiowá, se percam um tanto a mais no imaginário ao final da exibição. Poderia ser muito melhor, e acaba sendo um tanto pior.

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