O JARDINEIRO FIEL:


Fonte: [+] [-]
Original: The Constant gardener
País: EUA
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston, Anthony LaPaglia, Pernilla August e Sidede Onyulo
Duração: 129 min.
Estréia: 14/10/2005
Ano: 2005


Fernando Meirelles mantém-se fiel ao bom cinema


Autor: Rogério Ferraraz

Antes de entrar em comentários pontuais e análises detalhadas sobre aspectos técnicos e estéticos, vale ressaltar, logo de início, que “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener) é sim um dos grandes filmes do ano, talvez o maior até o momento. O primeiro trabalho dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (Cidade de Deus) fora do país, e com um grande orçamento, 25 milhões de dólares (baixo para os padrões dos grandes estúdios), coloca-se, desde sua apresentação no Festival de Veneza e a bem sucedida carreira em terras ianques, como um dos fortes concorrentes ao principal prêmio da indústria cinematográfica norte-americana, o Oscar. Não será surpresa se ele receber indicações em, pelo menos, cinco categorias: filme, direção, ator, para Ralph Fiennes (A lista de Schindler), atriz, para Rachel Weisz (A múmia) e fotografia, para César Charlone (Cidade de Deus). Isso sem falar na montagem, de Claire Simpson (Platoon), na trilha sonora, a cargo do espanhol Alberto Iglesias, colaborador assíduo de Pedro Almodóvar, e no roteiro adaptado, assinado por Jeffrey Caine (007 contra Goldeneye) – este o ponto mais fraco da obra.

Trata-se de uma adaptação do romance homônimo de John Le Carré, que se tornou um best-seller logo após ser lançado em 2001. Na transposição para o cinema, algumas modificações ocorreram, principalmente com a retirada de personagens e de uma trama política sobre a construção de uma barragem hidrelétrica no Quênia. O enredo do filme mostra, então, a estória de um funcionário da diplomacia britânica no Quênia, Justin Quayle (Fiennes), que começa a investigar as ações passadas de sua mulher, a ativista social Tessa Quayle (Weisz), após ela ter sido assassinada. Não satisfeito com a versão oficial, que afirmava que Tessa havia sido morta por seu suposto amante, o médico Arnold Bluhm, parceiro dela nos projetos sociais, Justin vai atrás de informações e descobre que sua mulher havia desmascarado uma grande rede de corrupção e influências, envolvendo os governos britânico e queniano e a indústria farmacêutica, que usava a população do país como cobaia em testes para um novo medicamento. Ele resolve, então, ir até as últimas conseqüências para desvendar o crime.

A idéia de começar o filme com o assassinato de Tessa e, assim, apresentá-la ao espectador a partir das lembranças de seu marido Justin, em flashbacks iluminados de forma brilhante pela fotografia de César Charlone, mostra-se extremamente feliz e eficaz. É com as descobertas das atividades de sua falecida esposa que Justin começa, então, a entendê-la e a amá-la ainda mais. Junto com a compreensão cada vez maior do que Tessa significava para ele (e vice-versa) e da importância da luta que ela empreendia, o mergulho feito por Justin na realidade do Quênia desenvolve, então, sua consciência política e social, o aproximando, finalmente, de sua mulher.

Aliás, um dos pontos fortes do filme é o elenco, liderado por Ralph Fiennes e Rachel Weisz. Fiennes dá provas, mais uma vez, que é um dos grandes atores do cinema contemporâneo. A sutileza que ele imprime ao seu personagem, mesmo com as mudanças que ele sofre no percorrer da história, é digna de nota. Justin vai da aparente apatia e alienação à busca suicida por justiça e redenção sem perder os traços de cavalheirismo e timidez, num exercício profundo de interpretação que somente um ator brilhante e sensível como Fiennes é capaz de atingir. Weisz, por sua vez, transmite amadurecimento como atriz, entregando uma interpretação irretocável como Tessa, uma mulher dividida entre a causa humanitária e o amor pelo marido, mas que não abre mão de suas convicções, mesmo sabendo do perigo que corre.

Várias atrizes estiveram cotadas para viver Tessa, como Eva Green, Natalie Portman e Kate Winslet, sem contar Naomi Watts, a primeira escolha de Meirelles – ela teve que recusar o papel, pois, na época, estava filmando King Kong, com o diretor Peter Jackson. Até mesmo Nicole Kidman mostrou-se interessada. A escolha, felizmente, recaiu sobre Weisz. Vendo o filme e sua personificação de Tessa, fica impossível imaginar outra atriz com tamanha identificação com a personagem.

Com o desenrolar das lembranças de Justin, o espectador vai conhecendo aos poucos o caráter de Tessa e, com isso, descartando a possibilidade de ela ter sido morta por causa de uma traição conjugal. O momento chave é quando Justin lê um e-mail enviado por Tessa a um primo italiano em que ela deixa claro o amor que sentia pelo marido e por que escondia tudo o que estava acontecendo, pensando exclusivamente na proteção dele. Em off (portanto, apenas com a voz), Weisz transmite nessa cena toda a riqueza e complexidade daquela personagem, encontrando na expressão de Fiennes o seu contraponto ideal. É ali que se vê (e se ouve), finalmente, a completude daquela relação.

Vale destacar ainda o trabalho de outros atores do elenco, principalmente de Hubert Koundé, como Arnold Bluhm, Danny Huston, como Sandy Woodrow, Bill Nighy, como Sir Bernard Pellegrin, e Pete Postlethwaite, como Lorbeer. Assim como em Cidade de Deus, Fernando Meirelles acerta mais uma vez, agora em parceria com Leo Davis, no casting de um filme – o que comprova ser ele um diretor que compreende, como poucos, a essência e a evolução dos personagens construídos para as histórias que quer contar.

Além disso, a escolha por filmar no Quênia mesmo (em princípio, a produção queria rodar na África do Sul, país com melhor infra-estrutura) foi acertada, dando ao filme um caráter maior de realismo. As cenas em que os atores passeiam e interagem com a população nos mercados de rua e na favela de Kibera, em Nairóbi, foram feitas com câmera na mão e tomadas longas. A interação foi tão forte que isso transparece em algumas seqüências do filme. Essa proposta revela bem a posição de Meirelles, que só aceitou tocar esse projeto por causa da liberdade criativa que lhe foi assegurada. Nessas cenas passadas em Kibera, o filme atinge outra esfera, acertando em cheio ao mostrar uma realidade (e não se trata aqui de cenários falsos ou de denúncias vazias) poucas vezes vista no cinema comercial.

Se há um problema em “O Jardineiro Fiel” é o seu roteiro. A adaptação do livro de John Le Carré por Jeffrey Caine deixa muitas pontas soltas e algumas relações políticas (e até mesmo pessoais e afetivas) não ficam bem claras. Mas o pior é a forma como o roteiro leva a um desfecho apressado, jogando personagens importantes da trama para escanteio e contribuindo para o esvaziamento do clímax do filme, um problema grave em se tratando de um thriller. Talvez tal defeito (se assim pode ser denominado) seja compartilhado com a montagem de Claire Simpson, que imprime um ritmo cadenciado à maior parte do filme para acelerá-lo no final. Por outro lado, destaca-se, em sua edição, o trabalho primoroso com os flashbacks, que vai ao encontro das escolhas fotográficas de Charlone para tais cenas.

Felizmente, as qualidades técnicas, a mise en scène e a escolha do diretor em dar maior importância ao drama do que ao thriller são suficientes para qualificar o filme como um sopro de qualidade e vitalidade do cinema comercial. Esqueça esse papo de filme hollywoodiano, de concessões ao grande público alienado e outras ladainhas que alguns críticos costumam fazer se alastrar como erva daninha pelo jornalismo cultural brasileiro quando algum talento nacional começa a despontar no exterior, principalmente nos grandes mercados europeu e norte-americano. Um jardineiro talentoso consegue fazer nascer flores em lugares aparentemente impróprios e inóspitos. Fernando Meirelles, com “O Jardineiro Fiel”, qualifica-se como um deles.
Leia também:


Filme de gente grande

A incursão realista de Fernando Meirelles a colorida e pobre África