MIL ANOS DE ORAÇÕES:


Fonte: [+] [-]
Original: A Thousand Year of Good Prayers
País: EUA
Direção: Wayne Wang
Elenco: Faye Yu, Henry O, Vida Ghahremani, Pasha Lychnikoff
Duração: 83 min.
Estréia: 21/11/2008
Ano: 2007


Situações banais e cafonice em mais um exemplo do superficialismo de Wayne Wang


Autor: Fernando Oriente

Uma tendência domina boa parte do cinema mundial nos dias de hoje: filmes moralistas, cafonas e cheios de valores conservadores e reacionários que, no final das contas, pregam uma resignação mediante aos verdadeiros conflitos que atingem a sociedade. Esses elementos aparecem juntos em alguns longas ou isoladamente em outros. Esse fato pode ser notado não só nos filmes de mercado (aqueles que são concebidos para atrair milhões de espectadores), mas também no dito cinema de “Arte” (que em dias atuais, virou um rótulo para juntar no mesmo saco um bando diretores medíocres que se acham autores).

“Mil Anos de Solidão”, do diretor de Hong Kong radicado nos EUA Wayne Wang, é mais um exemplo desse tipo de filme que se propõe como veículo para a discussão de tormentos que assolam homens e mulheres no mundo globalizado. Wang fez de seu novo longa um amontoado de situações banais, contaminadas pelos mais corriqueiros recursos do “lugar comum” que dá as cartas na produção audiovisual atual.

Seu personagem principal, o velho chinês que vai até os Estados Unidos visitar a filha, é uma tosca caricatura do “velhinho puro e ingênuo”, cheio daquela falsa sabedoria oriental, vendida em butiques ocidentais, em que o segredo da felicidade está nas coisas simples da vida, na pureza dos princípios e no carinho para com o próximo. Ao longo do filme, o esforçado protagonista vai ganhando ares de uma espécie de “Pai Tomaz da Ásia”, o que chega a irritar o espectador mais exigente.

Wayne Wang constrói as cenas com muito artificialismo, e a tentativa de usar recursos de rebaixamento da luz ou explorar silêncios não ajuda em nada e ainda contribui com a falsidade das imagens do longa. As relações entre os personagens são frias, e as tensões que surgem entre eles são pra lá de rasas, calcadas em elementos de pseudo-psicologia.

Entre tantas metáforas pobres e representações superficiais, o que realmente prevalece em “Mil Anos de Orações” é o moralismo conservador. O velho chinês, cheio de seus valores nobres de fidelidade e crente no poder aglutinador da família, conduz o espectador a acreditar que os tormentos que afligem sua filha são decorrentes do fato de ela ter traído o marido e embarcado em uma relação fracassada com outro homem casado. Para Wang, não são as condições sociais, a solidão e nem o aculturamento da mulher os seus reais problemas, e sim o seu desligamento das regras morais que garantem a felicidade dos seres humanos.

Para completar essa balela moralista, no final do filme, o pai deixa claro que os boatos sobre um caso extraconjugal que ele teria vivido no passado não passam de invenção de “pessoas más”. Ele nunca traiu sua mulher. Pronto: sua moral está salva e preservada. São recursos como esses que evitam que o diretor se aprofunde em seus personagens e desenvolva uma dramaturgia minimamente complexa.

Outro defeito grave no longa de Wayne Wang é a personagem da iraniana, a nova amiga que o bom velhinho chinês faz em solo estadunidense. Ela é um arremedo da estrangeira encantada e alienada pelas falsas promessas de felicidade do “american way of life”. Embora o tipo dramático sirva como crítica a esse tipo de gente, os comentários que Wang poderia aprofundar no tema ficam engessados pela necessidade que o diretor vê em dar uma ternura e uma simpatia extra para sua personagem, o que fica ainda pior com o desfecho de melodrama barato que o cineasta dá a ela no filme.

Wayne Wang já foi absorvido pela indústria cinematográfica americana e, embora tente fazer filmes mais pessoais de vez em quando, não consegue se distanciar muito do mercado para o qual trabalha. As críticas que gostaria de fazer aos Estados Unidos em seu novo filme não atingem nenhum resultado concreto. Vemos um diretor que, por mais que ataque uma sociedade e alguns de seus valores, está perfeitamente inserido nela e, no fundo, compactua com seus códigos morais de funcionamento.

Leia também: