FELIZ NATAL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Selton Mello
Elenco: Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Graziella Moretto, Lúcio Mauro, Paulo Guarnieri, Fabricio Reis
Duração: 100 min.
Estréia: 21/11/2008
Ano: 2008


Ainda, somente, um exercício de referências.


Autor: Cid Nader

Primeiro trabalho por trás das câmeras de Selton Mello. Figura tremendamente reconhecida, num espectro mais ampliado das pessoas comuns, como ator de sucesso e forte apelo. Figura bem menos conhecida – dentro desses parâmetros ampliados – como apreciador e estudioso do cinema, da arte do diretor (cassavetiano juramentado – adora o mítico diretor norte-americano, John Cassevetes, e conhece sua obra como somente críticos e cinéfilos muito engajados conseguem conhecer). Logicamente que a expectativa de quem sabe desse seu apreço pela arte sob a ótica do realizador estava bastante inflada no aguardo de uma novidade que extrapolaria o reconhecimento fácil indicado pelo caminho das luzes e do brilho. Selton já deixou bem evidente seu apreço pela obra de seu ídolo quando comparou a resgatada Darlene Glória a Gena Rowland – musa, mulher e atriz ícone dos filmes de Cassavetes.

Mas vendo o filme, a expectativa começa a dar piruetas em busca de opiniões mais concretas sobre se gostei disso ou desgostei daquilo. Por que temos que ceder a esse malabarismo mental durante a exibição, durante a constatação? Por que nos pegamos, dentro desse malabarismo, exigindo muito mais de nossa capacidade crítica, quando a expectativa é mais extremada? Esse risco da expectativa lá em cima costuma ser mais carrasco do que quando não nutrimos esperanças por algum trabalho. E quem sofre o viés disso – no caso da decepção – é o cara por quem nutrimos admiração, ou que nos incita a curiosidade. Selton talvez venha sofrer a conseqüência crítica desse mal que atinge diretores, nesse seu primeiro trabalho. Numa avaliação "física", "nomenclaturada" dessas primeiras impressões, saí com um "médio para baixo", como minha opinião, após conversas tensas com amigos que também não agüentavam uma noite de maturação para discussões mais calmas – vale lembrar que dois não gostaram do filme, um achou médio, como eu, e outro adorou.

Mas depois passei a perceber o que resultou dessa primeira empreitada dele. Percebi um filme com um cuidado assombroso de fotografia – Lula Carvalho, por vezes exagerado, cumpre bem as intenções do diretor em "Feliz Natal" -; com poucas opções para escape e respiração - já que a proposta era a de exibir o comportamento humano em desalinhamento. O filme não quer facilitar a observação para muito além de seus personagens, e a câmera que gruda neles tenta se encarregar disso – sem dó nem piedade. Essa mesma câmera justa e próxima que executa Lula faz jus à idéia e concretização que sempre impregnou os filmes do diretor norte-americano: que sempre perseguiu seus "seres" muito de perto; que sempre discutiu a condição humana. Mas, outras referências foram se caracterizando durante o descobrimento do filme, e se via nitidamente Lucrecia Martel na tela – inclusive com uma cena de piscina e pessoas degradadas muito similares ao que ocorre em "O Pântano"; inclusive com a decadência familiar permeando e dominando as possibilidades individuais que deveriam ser excetuadas do todo (falo em individualidade afinal), mas revelam seres disfuncionais e jogados num mundo cruel ("crudelizado" por eles mesmos, como preconiza a diretora argentina em sua obra); inclusive com a bela e "irresgatável" cena do menino, ao final.

Já parece estar ficando nítido que falo de um trabalho que se fez via referências, e mais uma me saltou aos olhos: o filme tem alguns vícios estéticos – a repetição da música, a composição de alguns personagens meio (exageradamente) deslocados socialmente, e as possibilidades de "ruindades humanas" a explodir brevemente na tela – de um certo cinema sem esperanças que se executa por aqui, principalmente de alguns autores surgidos da escola de Recife (Karin Aïnouz, Cláudio Assis...). Os personagens do filme parecem muito ligados a essas referências: Mércia (Darlene Glória) e seu "descompasso emocional feminino" é figura evidente de Cassavetes (se bem que transite dentro de um mundo muito próximo ao de Lucrecia); Theo (Paulo Guarnieri na atuação mais sensível e "comprável" do filme) é um homem sem ação que cairia como luva nas obras da diretora argentina; enquanto Caio (Leonardo Medeiros, em mais um atuação que vem se repetindo eternamente, o que começa a comprometer sua carreira) é figura dessas que são difíceis de ser engolidas que brotam nos filmes pretensamente marginais de Pernambuco.

A impressão que resta é a de que Selton Mello só consegue concluir um exercício de referências. Que não completam um filme (pensando nisso como algo que deva ser orgânico e fluido quando ajuntados os pedaços); referências estanques que necessitariam ser imiscuídas para completar um todo: uma obra. Erra ao entregar via imagens um momento (envolvendo Caio) que já se pressupunha e ficaria melhor no imaginário. Ainda muito incipiente para alguém que entende tanto de cinema. Mas vale notar que essas mesmas falhas de não "aglutinação" podem ser vistas como possibilidades: é inicial a tentativa, e, esquecidos um pouco os salamaleques aos ídolos, coisas mais sólidas e bem executadas poderão surgir da parte dele. Outra possibilidade – e me vejo durante a confecção do texto tentando pensar no melhor, incrível como funciona nossa mente – advém da bela cena que encerra o filme, sobre os créditos, por baixo de uma cortina vermelha (muito linda; e se alguém consegue concretizar algo do gênero, entende do riscado e acena com esperanças).

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