PAN CINEMA PERMANENTE:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Nader
Elenco: Documentário
Duração: 107 min.
Estréia: 14/11/2008
Ano: 2008




Autor: Cid Nader

Como fazer um documentário sobre figura reconhecida em círculos diminutos, com a intenção de revelá-la a um público mais amplo? Essa é uma das questões mais enfrentadas por documentaristas quando resolvem enveredar por tal linguagem cinematográfica – afinal, o que seria, na essência., na base, um documentário, se não uma apresentação jornalística de fatos, pessoas, ou lugares? A tendência universal recai na coleta e subseqüente aglutinação de vasto material pesquisado – obviamente. A tendência universal, privilegia a repassada destes dados ao público através de trabalhos com forte tendência de situar-se como muito crível, o que teria como pressuposto uma forte vinculação ao "pé no chão", à seriedade, ao discurso fluido na narrativa. Para bem e para o mal, alguns realizadores não pensam de maneira tão pragmática após assumida a proposta da divulgação de um algo, ou alguém ou algum lugar. Quase sempre para o bem, alguns ultrapassam o fantasma do pragmatismo "necessário", apostando na construção totalmente amparada pelas possibilidades "artísticas" que as ferramentas possibilitam – que muitos não executam, ou por falta de capacidade, ou por medo, ou por sabe-se lá o quê.

Carlos Nader é um multimídia (com todo o respeito que a definição deveria sempre gerar) dos mais competentes em nosso país. Nosso país é um celeiro de artistas (realizadores) que buscam a "contra-mão" no momento de contarem seus trabalhos. Carlos resolveu retratar (?) Waly Salomão; resolveu revelá-lo para um público mais amplo. Waly era um multi-artista (tresloucado?) das palavras; pouco conformado com fazer poesia comuns, com manifestar-as de modo passivo, com executar sua arte. Restam duas possibilidades quando da intenção assumida por alguém no momento de documentá-lo: ou o municiamento extremamente farto, acompanhado de um rigor absurdamente matemático na hora da organização das "provas"; ou a aproximação do "lúdico" (num sentido mais livre da palavra) para tentar aproveitar os caminhos pré-estabelecidos pelo retratado, que fariam de sua "demonstração" ao mundo uma opção supostamente menos traumática, menos agressiva, menos solavancada.

Quando a exibição de "Pan-Cinema Permanente" inicia, logo se percebe que a tentativa, a ousadia, o não comum, serão os caminhos optados. Para quem conhece o pregresso da obra de Nader, nada tão "assustador". Quando Wally passa a ser compreendido através da apresentação fragmentada que se faz a base inequívoca do trabalho, nada tão "assustador" se concretiza ante a possível ignorância da maior parte do público frente o que confeccionou o artista baiano no decorrer de sua existência. O documentarista acompanhou Salomão por muitos anos - cerca de treze – e estocou farto material visual. Sente-se no filme uma proximidade quase de teor adolescente entre os dois (se bem, que Waly – que morreu em 2003 – fosse bem mais velho que Nader), o que resultou num não disfarce nas atitudes do poeta diante das lentes. Na realidade, falar em não disfarce por parte de Salomão pode parecer maluquice - já que ele sempre se posicionou diante do mundo como um artista "disfarçado", como alguém que sempre atuava, sempre cometendo performances – mas a singeleza, leveza e alegria, que resultaram nas imagens captadas dele fazem entender que havia uma cumplicidade de garotos entre os dois.

O que resultou, foi um exemplo de como se pode apresentar alguém sem caretice narrativa. Resultou um trabalho que deve ser registrado sim como documental, mas que merece adjetivações muito mais nobres. Há toda uma construção poética, com cortes que se valorizam por inserções de palavras explicitadas na tela como pano de fundo de "bom gosto". Com edição que se aproveita de imagens captadas belamente em contra-luz num porto de Beirute, por exemplo, sonorizada por conversa íntima que aproxima em seus imaginários o que se vê à imagem da Bahia. Ou com a performance "enlouquecida" (walysalominesca?) frente a um apresentador de tv sírio, formal, culto, que imagina estar apresentando para os seus um "filho da terra" que vingou num outro país; momento que elucida bem a quem não conhecia Salomão ( como o apresentador, também) um muito dele. Aliás como um dos incontáveis exemplos no filme que, aglutinados, fazem da obra de Carlos Nader também um documentário jornalístico/pedagógico – um exemplo concreto das possibilidades que poderiam (deveriam) ser utilizadas por quem resolve transitar pelo gênero.

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