[REC]:


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Original: Idem
País: Espanha
Direção: Jaume Balagueró e Paco Plaza
Elenco: Vicente Gil, Manuela Velasco, Manuel Bronchud, Carlos Lasarte, David Vert, Javier Botet, Martha Carbonell e Maria Lanau
Duração: 85 min.
Estréia: 14/11/2008
Ano: 2007


Zumbis de “Rec” devem agradar aos fãs do horror “fast food”


Autor: Fernando Oriente

Quando assistimos a um filme como “Rec”, em que zumbis atacam personagens perplexos, provocam o caos e promovem uma verdadeira carnificina, é impossível não nos lembrarmos dos longas de George A. Romero, um dos grandes cineastas norte-americanos em atividade. Romero faz filmes de horror que dialogam com a situação sócio-política de sua época e já assinou clássicos como “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) e os recentes “Terra dos Mortos” (2005) e “Diário dos Mortos” (2007). Ao contrário dos diretores de “Rec”, Jaume Balagueró e Paco Plaza, George Romero mostra uma sofisticação e um domínio pleno na construção de seus trabalhos, além de ser um profundo conhecedor da sintaxe do cinema.

“Rec” é um filme competente dentro de sua proposta e suas limitações conceituais; uma diversão para consumo imediato que consegue manter um bom ritmo ao longo de sua projeção e atinge alguns momentos de tensão que envolve o espectador (principalmente o público mais jovem, aficionado pelo estilo ágil e barulhento). Deve agradar em cheio a esses fãs do atual cinema de horror, em que o compasso frenético e a plasticidade das imagens valem mais do que as qualidades cinematográficas do filme de gênero. Se comparado com a pobreza e a mediocridade das atuais produções norte-americanas na área, “Rec” leva uma grande vantagem. Mas os méritos do longa não vão muito além disso. Os zumbis desta produção espanhola não têm o mínimo teor político e não há no filme a intenção de se apropriar de metáforas ou mesmo de se criar situações de ambigüidade.

A proposta visual dos diretores espanhóis também não surpreende pela originalidade. Desde o sensacional “Cannibal Holocaust” (1980), de Ruggero Deodato, passando pelo sucesso “A Bruxa de Blair” (1999) até o último trabalho do próprio Romero, “Diário dos Mortos”, o cinema já viu longas em que as imagens seriam, supostamente, uma colagem de registros documentais que acabam por captar situações de terror e desespero. Até certo ponto, “Rec” faz bom uso desse recurso, na medida em que a instabilidade dessas imagens garante um sentido de desordem e uma sensação de desespero que vão a tom crescente até o final.

Outro fator que garante certa força ao longa (mas que o limita em vários outros aspectos) é o fato das ações se passarem todas dentro de um pequeno prédio na Espanha, onde os moradores encontram-se presos, abandonados à ameaça dos zumbis. Se compararmos novamente o filme com os trabalhos de Romero, fica evidente a despreocupação em contextualizar os zumbis como produto da sociedade, já que nos filmes do cineasta norte-americano os mortos vivos espalham-se com incrível velocidade por todos os lados, não sendo nunca contidos. É uma ameaça incontrolável, que vai dominando as estruturas do espaço público sem chance de ser detida. Os comentários de Romero são apocalípticos para a humanidade. Em “Rec”, a intenção dos diretores espanhóis é aterrorizar os espectadores dentro do mesmo espaço limitado que reservam para seus protagonistas.

Embora seja um filme angustiante em alguns de seus pontos altos, “Rec” peca ao cair em erros comuns aos filmes de horror de atualidade. O ritmo ágil não é embasado em uma boa decupagem, e sim na tentativa de acelerar a sucessão de planos para tragar o espectador sem contextualizá-lo na gênese das ações em si. O som também é usado de forma bruta no filme, o que resulta em várias passagens desnecessariamente “barulhentas”.

Mas os principais defeitos de “Rec” vêm nas seqüenciais finais. O que até então era um filme de suspense e terror OK, vira uma colagem de soluções conclusivas fracas, com justificativas demoníacas para a origem dos fatos e recursos visuais literalmente copiados de outros longas. Mas apesar de todos os seus defeitos, o filme de Jaume Balagueró e Paco Plaza tem certa sinceridade e, por não ter pretensões muito maiores daquilo do que vemos na tela, deve arrebatar os espectadores para o qual foi feito.

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