CASHBACK:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Reino Unido
Direção: Sean Ellis
Elenco: Sean Biggerstaff, Emilia Fox, Shaun Evans
Duração: 98 min.
Estréia: 07/11/2008
Ano: 2006


Início ingênuo, final óbvio, miolo interessante.,


Autor: Fernando Watanabe

O início soa um tanto desanimador, uma vez que Cashback parece ser mais um filme sobre amor adolescente. Tal início será confirmado ao final, mas, o que há de mais interessante no filme está justamente nesse recheio que separa o início ingênuo do final óbvio.

Ben parece ser mais um adolescente coitadinho que sofre da síndrome da dor de cotovelo, doença para a qual a solução correta é o encontro de um novo par. O que o diferencia da imensa galeria de personagens clichês “já vistos” no cinema é sua veia artística: ele é aspirante a pintor. Seguindo um preceito de coesão clássica, esse aspecto da vida dele está caminha lado a lado com a questão do relacionamento com o sexo oposto.

Bem tem o “olho” do pintor; tudo o que é mulher ele deseja, não exatamente de forma sexual, mas de forma estética. Sua fascinação pelas formas femininas é traduzida por recursos de imagem congelada, momentos nos quais o tempo cronológico do mundo parece permanecer suspenso. Pena que tal ferramenta de linguagem, assumidamente artificial, se esgote pela repetição insistente, sem variações. A atividade de um pintor, no filme, se resume a “congelar o tempo”. Ok, noção mística e bela essa, mas sente-se ali uma simplificação/redução do fazer artítico propriamente dito.

Talvez porque a trama ainda tenha que dar conta do novo caso de Ben, Sharon, uma colega que ele conhece em seu trabalho em um supermercado. A relação entre os dois é o que há de mais frágil no filme, e infelizmente parece ser o ponto de maior interesse do cineasta lidar com o “vai-não-vai” entre a dupla.

Todavia, há cenas extremamente deliciosas de se assistir, momentos que poderiam ser um filme à parte, bem ao modo de um curta-metragem. A partida de futebol antológica entre o time do supermercado contra uma equipe que realmente sabe jogar, por exemplo. Encenada em um campo absolutamente abstrato, localizado em lugar nenhum e cujas medidas do campo e das traves são deformadas em relação a um estádio normal. A festa de aniversário do chefe também tem sua graça quando entra em cena a stripper acompanhada de seu fiel guarda-costas. A visita de Bem e seu irmão fazem a um prostíbulo também é digna de admiração, ou, ao menos, de alta dose de estranhamento. O prostíbulo simplesmente funciona de dia. Lá, alguns gatos pingados decadentes e esquisitos – à maneira de David Lynch – parecem decorar o lugar cuja trilha sonora é uma música sensual que toca em baixo volume.

Aliás, o som do filme merece atenção especial. A idéia é atingir a abstração em praticamente todos os ambientes (supermercado, estádio, prostíbulo), então têm-se praticamente eliminados os sons de ambiente tipicamente realistas (transeuntes, trânsito, e quaisquer ruídos não necessários à dramaturgia). Tal operação, somada às locações mínimas, virtuais - que remetem mais à idéia de lugar sem serem concretos de fato - , só realça a maior qualidade deste primeiro filme do diretor Sean Ellis: a estranheza. De resto, é necessário abstrair suas mensagens piegas e seu final decepcionante, para assim se estar livre para desfrutar de vários bons momentos e da ótima ambientação do trabalho.

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