O SILÊNCIO DE LORNA:


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Original: Le Silence de Lorna
País: Bélgica / França
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Elenco: Arta Dobroshi, Jérémie Rénier, Fabrizio Rongione, Alban Ukaj, Morgan Marinne
Duração: 105 min.
Estréia: 07/11/2008
Ano: 2008


Mais uma aula de cinema dos Dardenne


Autor: Fernando Oriente

Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem parte do grupo de grandes cineastas surgidos nos anos 80 e que se solidificaram entre os maiores realizadores mundiais na década de 90. Ao lado de diretores asiáticos como Tsai Ming Liang, Jia Zhang Ke e Hou Hsiao Hsien, da francesa Claire Denis e do dinamarquês Lars Von Trier, entre outros, os irmãos belgas representam uma renovação na estética e no conteúdo do cinema contemporâneo, em que se percebe a influência de grandes autores do passado, mas também ficam claras características originais e pessoais desses novos talentos.

Após quatro filmes seguidos que podem ser classificados como obras-primas, ou quase (“A Promessa” de 1996, “Rosetta” de 1999, “O Filho” de 2002 e “A Criança” de 2005), os irmãos Dardenne voltam às telas com “O Silêncio de Lorna”. No novo longa estão presentes as características marcantes dos cineastas: a temática social, em que homens e mulheres comuns são esmagados por uma estrutura política cruel que impõe o peso da ordem econômica da desigualdade e ressalta o aspecto descartável que essas pessoas marginalizadas têm no mundo de hoje.

É um cinema político contemporâneo, em que o discurso é centrado nos dramas de seres humanos anônimos, cuja vida cotidiana serve de microcosmos para as relações políticas e sociais que compõe a norma da sociedade controlada pelas grandes empresas, dentro do “paraíso” do capitalismo de livre mercado. Um mundo em que o Estado não existe e o governo serve apenas como superestrutura para legitimar política e juridicamente os mandos e desmandos das grandes corporações.

Uma marca registrada dos diretores: a câmera na mão, colada nos personagens em planos tensos com imagens trêmulas e que atuam na representação do desespero desses tipos, é diluída em “O Silêncio de Lorna”. No novo filme, a dupla abre espaço para imagens e cenas mais cadenciadas, menos movimentos de câmera e menor agilidade visual, embora os ângulos fechados e a mobilidade da câmera também estejam presentes. É como se optassem mais pelo aspecto contemplativo, abrindo mais espaço para a reflexão. A dor e a angústia das pessoas que vemos na tela são retratadas mais pelas texturas e tonalidades impressas na construção cênica desses personagens e das situações que vivem (além da impressionante qualidade da mis-en-scene) e menos pela construção estética visceral dos filmes anteriores dos Dardenne. É nitidamente uma questão de opção, a qualidade dramática e o poder estético são excelentes em todos os trabalhos assinados por eles.

E é exatamente a mis-en-scene um dos pontos altos de “O Silêncio de Lorna”. Ela é tão boa e bem construída que capta com precisão cirúrgica a dor, a ansiedade angustiante e a intensidade dos sentimentos dos personagens. Jean-Pierre e Luc Dardenne extraem o máximo da tensão de cada cena, além de captarem a angústia de um tempo de espera que envolve as figuras dramáticas. Todos esses recursos compõem a retórica dos cineastas, a visão de um mundo áspero nas relações humanas, onde códigos e regras cruéis regem a vida de pessoas marginalizadas no sistema. A ética é subjugada e se torna relativa em um processo em que apenas a sobrevivência importa. Homens e mulheres são só peças de manobra, objetos descartáveis e a subjetividade é constantemente esmagada.

A Lorna do título, uma imigrante albanesa que se casa com um dependente de heroína para conseguir a cidadania belga, é uma personagem típica do cinema dos Dardenne. Vítima do estado de coisas dos nossos dias, ela tem que reprimir sua fragilidade e recalcar seus medos e sua dor para tentar se adaptar e tirar algum proveito da realidade que a cerca. Por um pouco de dinheiro, ela entra em uma espiral de delitos que visam garantir identidade da União Européia para tipos suspeitos. No plano original, após seu casamento arranjado e a garantia do passaporte europeu, Lorna veria os arquitetos desse esquema ilícito provocarem uma morte por overdose em seu marido de fachada e partiria para os próximos estágios do plano.

É em cima dessa premissa, mudando naturalmente a seqüência das ações, que os cineastas introduzem um novo elemento que eleva a tensão dramática no longa. Surge, no meio de todo esse processo cruel, uma relação mais intensa e complexa entre a jovem albanesa e o viciado Por mais que ela tente não se envolver com os sofrimentos do rapaz, lute para solidificar mecanismos de defesa para as dores que a cercam, o caráter humano de sua natureza faz com que entre eles apareçam laços de intimidade e consideração mais profundos. A construção do desenvolvimento dessa relação é conduzida com maestria pelos Dardenne, chegando a uma belíssima cena de sexo, em que o desespero, a compaixão, os sofrimentos e a entrega se misturam em imagens diretas e intensas.

Outro grande momento de “O Silêncio de Lorna” é uma poderosa elipse criada pelos cineastas Radical e seca, ela quebra bruscamente o rumo que o espectador pensa que filme vai seguir. É uma manipulação sofisticada que os diretores usam para aumentar a intensidade da narrativa e conduzir o público ladeira abaixo no caminho de condenação dos personagens.

Na parte final, que não deve ser contada em detalhes, outro elemento forte do cinema dos Dardenne entra em cena. O filho, a possibilidade de uma criança, assume o papel de possível redenção pela culpa dos atos praticados. Embora não exista esse personagem no longa, as possibilidades dessa presença oferecem mais um ângulo para se aproximar da alma atormentada de mais uma belíssima figura dramática criada pelos cineastas. Mas, olhando ao nosso redor, será que Lorna é inventada ou milhares de mulheres como ela andam pelos quatro cantos do mundo agora mesmo?

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