LEONERA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Argentina / Coréia do Sul / Brasil
Direção: Pablo Trapeiro
Elenco: Martina Gusman, Elli Medeiros, Rodrigo Santoro, Laura García, Tomás Plotinsky
Duração: 113 min.
Estréia: 07/11/2008
Ano: 2008




Autor: Cid Nader

Dizer que Pablo Trapero é um dos grandes diretores da atualidade e dos poucos da Argentina que continua mantendo carreira estável e sólida após o boom do país, na arte, parece cada vez mais desnecessário. E o melhor nesses casos é ver o quanto alguém é bom em seus domínios quando executa alguma obra mais abaixo de suas possibilidades - o caso de "Nascido e Criado", no ano passado - e isso não configura rotina que continuará, ao se constatar obra nova e muito boa, o que é o caso de "Leonera". O diretor talvez tenha sido o primeiro a embarcar (e perceber) de maneira visceral na nova realidade do país, que estava iniciando seu tormento econômico na década de noventa, quando fez o seco, realista, humano e sincero "Mundo Grua" (1998), desviando corajosamente o foco que quase sempre ainda se mantinha direcionado para os estragos ocasionados pela ditadura militar no país (sim, a crise econômica também tinha a mão retardada da ditadura, mas o avanço dos problemas mundiais nesse setor parece ter sido prognosticado pelo jovem diretor), e que se fazia nove entre dez histórias originadas lá.

Pablo tem construído uma obra que se faz autoral pelo mote do desprotegido, do desvalido, do impossibilitado social - mesmo que brotado do seio da classe média -, e representa na tela cada vez um lado desses seres "precarizados" por razões que no fim são originárias de uma sociedade que vai desfazendo. Mas ele não faz do drama primordial das situações abordadas o padrão a ser orientador em suas películas. Sempre utiliza a imagem do drama (a epiderme) para denunciar ou relatar as camadas mais interiores dele - em o "Outro Lado da Lei" (2001), por exemplo, a camada superficial enxergada era a do comportamento policial, mas o âmago mais profundo tratava do ser que tem que se deslocar do seu local para tentar a vida onde as possibilidades se apresentam mais "facilitadas", fracassa e tem que voltar derrotado, mas de qualquer modo ao aconchego uterino (um drama humano que se repete milenarmente, aliás).

Em "Leonera", a denúncia (o assunto, melhor dizendo) traz num primeiro plano de apreciação a situação dos presídios, mas vai quase à singeleza ao revelar de modo inédito as presidiárias que têm filhos bebês, e como nutrem sua vida (ou fazem disso sua nutrição, sua esperança) encarceradas com eles. Esse levar à singeleza pode até ser sentido nos créditos inicias, com uma canção infantil entoada sobre desenhos e letras em branco e preto, com imaginação e beleza plástica acima da média. Mas como a busca dele está nas profundezas dos assuntos sociais, e para isso é preciso que se escarafunche camadas e se passe por "sujeiras", o corte em direção às primeiras cenas é absolutamente contundente e afastado da singeleza inicial, e quando se percebe o que acontece dentro de um apartamento "machucado e sangrado", percebe-se também a incrível capacidade de Trapero em filmar e editar - tudo o que parece no início e não parece mais depois; a volta e uma situação inexplicável; a clareza nas imagens, mas que não revelam verdades (aliás, verdades que não se manifestarão até o final o filme). Uma camadinha de pêlos fala de crime inexplicável; a epiderme mostra o sistema penitenciário; mas as entranhas tratarão da maternidade dentro do sistema carcerário.

O bom em Trapero é que ele não evita o registro dramático ficcional em suas histórias para fazer mais forte o seu dom de denunciador/questionador. O filme avança mostrando os sustos de alguém de classe média chegando num mundo de aparência violenta inquestionável - as palavras e gestos dirigidos a Julia (Martina Gusman) são assustadores para quem viveu sempre no mundo da moderna classe média -, revela a possibilidade de e viver dentro do sistema, anuncia a mãe ausente, dela, se apresentando no momento em que seu filho nasce, faz perceber as razões inquestionáveis que levam ao amor atrás das grades (Trapero trata do assunto de maneira sensível e compreendedora), caminha para um pequeno entrecho jurídico, resgata as razões dos sangues iniciais, e termina de modo um tanto estranho (um senão que me pareceu questionável, principalmente se tratasse de obra com intenção de "diversão" simples). Ele não abandona uma história em busca de defender suas causas: mas sempre as defende e isso é o mais forte e relevante de seu cinema - que ainda por cima é sempre muito bem filmado.

A sensibilidade em mostrar lá nas entranhas o que pode possibilitar a vontade de continuar a vida - que é essa troca da vida dedicada à cria -, e como isso ocorre nas cadeias argentinas vale demais pelo filme. E mais um bom Trapero na praça.

Leia também: