ÚLTIMA PARADA 174:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Bruno Barreto
Elenco: Michel Gomes, André Ramiro, Cris Vianna, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Anna Cotrim, Tay Lopez, Douglas Silva, Rafael Logan
Duração: 114 min.
Estréia: 24/10/2008
Ano: 2008


"Última Parada 174", a violência a serviço do show


Autor: Marcelo Lyra

"Última Parada 174", de Bruno Barreto, recria o trágico incidente ocorrido no Rio de Janeiro, em 2000, quando o assaltante Sandro do Nascimento, manteve reféns num ônibus durante uma tarde inteira diante das câmeras de TV. Ao final, a refém Geisa Gonçalves, de 21 anos, acabou morta numa ação desastrosa da polícia, que lembra muito o recente caso da morte da menina Eloá, ocorrido em Santo André (SP).

O filme é mais um representante do bem sucedido sub-gênero “violência da favela”, filho bastardo de “Cidade de Deus”, adotado e criado por “Tropa de Elite”. Este último é quase uma onipresença. Além da origem ser o documentário do diretor de “Tropa”, tem o mesmo roteirista, Bráulio Mantovani (que também assina "Cidade de Deus"), e conta com um link direto: o policial que negocia com Sandro é o ator André Ramiro, que em “Tropa” faz o parceiro e possível sucessor do personagem de Wagner Moura.

Ao final da sessão para a imprensa, um crítico disse que este era o melhor filme de Bruno Barreto nos últimos tempos. Não chega a ser um elogio, pois “Caixa Dois”; “Casamento do Romeu e Julieta” e “Voando Alto” não são grande coisa. “Voando Alto” virou até piada nos EUA. Em um episódio do seriado “Gilmore Girls”, a personagem tenta consolar uma amiga dizendo “Todo mundo já fez algo que se arrependeu. A Gwyneth Paltow não fez aquele filme que ninguém viu, onde ela era uma aeromoça?” "Última Parada 174" perde muito na comparação com o excelente documentário “Ônibus 174”, de José Padilha, que depois dirigiria o sucesso “Tropa de Elite”. Com ela fica evidente a vocação de Barreto para o espetáculo, em detrimento de qualquer aprofundamento. Ele não se interessa por discutir questões sociais, motivações e muito menos apontar culpados. Os personagens são rasos e sem nuances. Sandro Nascimento é mostrado como vítima da sociedade, os policiais cumprem seu dever, já a mãe, que poderia ser interessante, age mais por sua religiosidade e pelo instinto materno frustrado.

Nem vamos falar em certas liberdades históricas, como o fato que Sandro escapou do massacre da Candelária por dormir no telhado da banca de jornal próxima, não fingindo-se de morto no chão, como mostra Barreto. Aqui, como de resto, não há sutilezas. Uma cena mostra os comerciantes da Candelária incomodados com a presença dos meninos de rua. Já estava claro, mas como Barreto não acredita em imagens e muito menos confia no espectador (talvez por julgar por si mesmo), há pelo menos mais duas cenas onde se diz explicitamente que os matadores foram mandados pelos comerciantes. Não se fala que havia policiais envolvidos.

A grande mágica do cinema, essa capacidade de nos transportar para dentro do ônibus, já que no documentário tudo é visto de fora, se perde com um tratamento simplista. Não há agonia, não há desespero. Apenas um bandido dando um show. Mesmo o final é frouxo. Sandro foi assassinado pelos policiais dentro da viatura, mas Barreto sequer nos mostra isso. Chapa branca? Não, imagine. De quebra, apela-se para um final piegas digno de novela das seis, com um segundo Sandro, que não existiu na realidade, podendo ser adotado pela mãe carente.

Mas há quem goste de um espetáculo e esses terão suas expectativas atendidas. "Última Parada 174" é movimentado e tem algum suspense. O ator Michel Gomes (que atua em “Cidade de Deus”) consegue obter um mínimo de envolvimento do espectador. De fato, é mais do que havia nos últimos filmes do diretor.

A fotografia do francês Antoine Héberlé (de “Paradise Now”) segue os modismos de “Cidade de Deus” e “Amores Brutos”: muita câmera na mão, emulação de documentário etc. Mas a exemplo do roteiro, está mais a serviço do show do que em busca de um diálogo com a situação retratada.

Em resumo, é um filme de ação eficiente, ambicioso e vazio. Pode até ser indicado ao Oscar estrangeiro, mas não acrescenta nada à filmografia brasileira. Deve ser esquecido tão logo cumpra o ciclo “cinema – mercado de DVD - TV a cabo - TV aberta”.

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