OS IRMÃOS GRIMM:


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Original: The Brothers Grimm
País: EUA
Direção: Terry Giliam
Elenco: Matt Damon, Heath Ledger, Monica Bellucci, Peter Stormare, Jonathan Pryce, Lena Headey
Duração: 118
Estréia: 07/10/2005
Ano: 2005


"Irmãos Grimm " - uma fábula sobre os fabulistas


Autor: Cid Nader

Minha iniciação no mundo dos escritos - mais especificamente, minha alfabetização, entre os 4 e os 5 anos - deveu-se à verdadeira fixação que tinha pelas obras de Monteiro Lobato e pelos contos dos irmãos Grimm.

Já a minha iniciação no mundo do bom cinema - aquele, mais autoral, sem concessões, que o faz muito mais próximo de ser classificado como arte - se deu quando conheci o trabalho do grupo inglês Monty Python, numa noite de sábado, na década de 1980, gargalhando ante o humor inusitado, sem escrúpulos e devastador de A Vida de Brian.

Do saudoso grupo britânico destacou-se, após sua dissolução, o diretor Terry Gilliam, que iniciou sua carreira com uma verdadeira obra prima, “Brazil, o Filme”, no qual ainda eram notados alguns dos bons vícios e cacoetes non-sense adquiridos na época do Monty Python.

Terry já praticava a arte da direção desde o período do grupo: “Monty Python e o Cálice Sagrado”, “Bandidos do Tempo”, “Monty Python e o Sentido da vida” etc. Suas seqüências de animação ficaram marcadas nos fãs da trupe e já indicavam a sua predileção por efeitos e capricho nos momentos que necessitavam de algo mais que atuações corretas e roteiros bem elaborados.

Sua refilmagem de “As Aventuras do Barão de Munchausen” e essa sua mais recente incursão, “Os Irmãos Grimm”, são mostra evidente desse dom mais, por assim dizer gráfico.

Talvez seja importante tornar claro o papel que as fábulas e contos fantásticos exerceram na formação do caráter humano através dos tempos. Na antiguidade o grego Esopo - que dizem alguns não ter existido realmente -; mais "recentemente" os irmãos Grimm e o dinamarquês Hans Christian Andersen - isso em se falando num mundo ocidental, melhor na auto-propaganda, já que os ameríndios e os povos extremo-orientais, por exemplo, também estão repletos de historietas com moral final e tudo mais.

Os irmãos Grimm procuraram, principalmente, pela zona rural da Alemanha - mais conservadora e cultivadora das tradições - tais contos e os divulgaram, tendo, talvez, como principal objetivo confrontar as idéias racionalistas, nascidas do Iluminismo, levadas pelo exército invasor de Napoleão Bonnaparte. Os contos, muito ao contrário da lógica racional, sempre mexeram com os medos interiores do ser humano, com os desejos e as crenças. Criaram parâmetros com seus finais de forma duvidosa, que contrastavam com o exigido comportamento aparente/formal. Gilliam cria uma frase interessante no filme, pronunciada pelo General Delamonte, interpretado por Jonathan Pryce, em momento de dúvida e temor ante situação inexplicável: "Eles contam histórias pra colocar medo nas tropas francesas".

Além do maravilhoso Jonathan Pryce, o elenco leva, de quebra, Matt Damon e Heath Ledger nos papéis de Wilhelm Grimm e Jacob Grimm; o primeiro de personalidade mais esperta, cheio de truques e galanteador e o segundo, de jeitão mais tranqüilo, introspectivo, interessado em coletar, e escrever sobre, contos e fábulas. Há também Lena Headley, como Angelika, uma caçadora, ao mesmo tempo letrada e liberada - quanto ao padrão vigente em sua aldeia - que conquista os dois irmãos, tanto pela beleza quanto pelo arrojo. Um impagável Cavaldi, canastrão, maldoso e boa alma, covarde metido a corajoso, até mesmo torturador - com muito prazer, nota-se pelas engenhocas utilizadas para tal fim -, interpretado pelo ator sueco Peter Stormare, que consegue criar um personagem ao melhor estilo Monty Python, e que se manifesta totalmente em momento de destempero futebolístico em couro felino. Para completar o elenco principal, fetiche dos fetiches, desejos mais secretos cutucados - haja libido -, há Monica Bellucci como a rainha má; veja se pode isso Sr. Gilliam, genial, sem comentários, muito obrigado.

O filme cria um conto sobre os dois irmãos, com direito a participações especiais de “Chapeuzinho Vermelho”, “Rapunzel”, “João e Maria”, inseridos de maneira esperta e inusitada na trama. Transcorre bastante amparado pelos efeitos especiais, que por muitas vezes se tornam excessivos, mas que alcançam, em outros momentos, um nível ímpar de qualidade estética, que só Terry Gilliam consegue alcançar, como já o havia em “As Aventuras do Barão de Munchausen” - na cena dentro de um estaleiro, no clima fantasmagórico captado finamente pelas câmeras que acompanham Chapeuzinho Vermelho por entre as árvores de um bosque, ou na seqüência do cavalo/lobo mau.

É um filme que melhorou com o passar dos dias. Aplacaram-se os desajustes causados pelos excessos - tecnologia -, e ganhou espaço, na minha memória, o bom gosto do diretor na criação do clima fabuloso.

PS: Terry Gilliam era o norte-americano do Monty Python e isso é nítido pelo seu apego ao espetáculo visual, que por vezes poderia, e poderá, comprometer o resultado final de seu trabalho.

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