FATAL:


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Original: Elegy
País: EUA
Direção: Isabel Coixet
Elenco: Penélope Cruz, Ben Kingsley, Dennis Hopper, Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard
Duração: 113 min.
Estréia: 10/10/2008
Ano: 2008


Isabel Coixet faz seu melhor filme, mas não consegue se livrar da pieguice e do humanismo raso


Autor: Fernando Oriente

Para chegar a esse “Fatal”, que pode ser considerado seu melhor trabalho, a diretora Isabel Coixet resolveu beber na fonte de um dos maiores escritores surgidos no século 20: adaptou para as tela o romance “Animal Agonizante” do norte-americano Philip Roth. Embora atinja uma certa densidade em seu novo longa que não havia alcançado com seus filmes anteriores, a nova obra de Coixet ainda é impregnada do humanismo raso e da pieguice que caracterizaram seus dois projetos antecedentes exibidos no Brasil, “Minha Vida sem Mim” (2003) e “A Vida Secreta das Palavras” (2005).

Típica representante do grupo de cineastas que querem mostrar a cada plano o quanto são sensíveis e o como se preocupam com as dores do ser humano nos dias de hoje, o cinema de Coixet fica sempre muito aquém do potencial que os dramas que ela aborda poderiam atingir. A abordagem da dramaturgia em seus filmes, “Fatal” inclusive, é contaminada pela necessidade que a diretora tem de emocionar e comover o público com os sofrimentos e a falta de perspectiva de seus personagens, o que diminui muito as complexidades dos dramas vividos e não oferece ao público a possibilidade de envolver-se de forma mais profunda e nem de tecer relações entre o que vêem na tela com aquilo que os envolve em seu cotidiano. Coixet mastiga as emoções e as sensações de seus tipos dramáticos e entrega tudo de bandeja para o público, sem deixar espaço para o aprofundamento reflexivo de nada daquilo que pretende mostrar.

Em “Fatal”, a diretora catalã enfoca as conseqüências de uma avassaladora paixão carnal e emocional que um professor de mais 60 anos desenvolve por uma de suas alunas universitárias. David Kepesh, vivido por Ben Kingsley, carrega toda as complicações de um homem que teme constantemente as limitações da velhice que se aproxima e, ao mesmo tempo, não se encontra preparado para abrir mão dos prazeres do corpo e da atração violenta que a beleza exerce sobre ele. A personificação dessa beleza é a personagem Consuela Castillo (Penélope Cruz). A tensão que Roth estabelece em seu texto vem, principalmente, do fato de que, enquanto o professor se acha incapaz de ser amado por uma jovem tão bela e condena o relacionamento ao fracasso desde o início, Consuela se entrega à relação e não enxerga nada que impeça os dois de viverem a intensidade da paixão que os une.

A covardia de Kepesh incomoda e frustra Consuella e a possessividade que começa a dominá-lo diminui drasticamente a eficácia dos mecanismos de defesa que ele desenvolveu ao longo dos anos para enfrentar o medo da desilusão amorosa e da constatação de suas limitações. Um dos principais problemas da adaptação de Coixet é o fato da diretora ficar presa o tempo todo ao convencional; ela se contenta em ser mediana no seu trabalho e é incapaz de ousar e tentar surpreender. A cineasta é vítima de certo academicismo que, teoricamente, garante uma segura qualidade a seu longa, o mantém na média das “produções de pretensões artísticas”, mas o impede de atingir níveis de complexidade mais intensos.

As limitações de Coixet e sua falta de capacidade em compor planos mais elaborados e desenvolver uma mis-en-scene mais abrangente ficam evidentes na maneira como ela tenta, mas não consegue filmar a beleza física de Penélope Cruz. Os planos do corpo da atriz espanhola são contaminados de grande artificialismo, em que a suposta sensualidade das cenas e o poder de sedução carnal das imagens chegam ao espectador de forma fria e esquemática. Outro ponto que chama a atenção é como a diretora é incapaz de desenvolver bem a progressão do relacionamento entre os dois protagonistas. A construção dos vínculos e da intimidade, recheada por medos e esperanças que tornam essa relação tão cheia de particularidades, não está presente no longa.

Na parte final (que no romance Roth aborda a transitoriedade do corpo e como ela está relacionada aos sentimentos, além da ameaça de degradação física que pode atingir a qualquer um, independente da idade) Coixet implode de vez o potencial dramático de seu filme. Nos últimos minutos (passagem que não existe no livro), o longa é invadido pelo humanismo otimista e raso e a pieguice que caracterizam toda a obra da diretora. Isso quebra toda a possibilidade que um cineasta mais talentoso deixaria em aberto para os questionamentos e a reflexão.

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