CAOS CALMO:


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Original: Caos Calmo
País: Itália/Reino Unido
Direção: Antonio Luigi Grimaldi
Elenco: Nanni Moretti, Valeria Golino, Alessandro Gassman, Isabella Ferrari
Duração: 105 min.
Estréia: 03/10/2008
Ano: 2008


Longa aborda processo do luto com competência


Autor: Fernando Oriente

Após a estréia, no final do ano passado, de “Novo Mundo”, os cinemas brasileiros voltam a receber uma atração que se tornou rara nos últimos anos: um bom filme italiano. “Caos Calmo”, de Antonello Grimaldi é um longa interessante sobre a elaboração do luto que, embora não seja tão bom quanto o trabalho de Emanuele Crialese (diretor de “Novo Mundo), resgata o prazer do cinéfilo em assistir a um representante de qualidade de uma das melhores cinematografias da história do cinema. Outro fator de peso que cerca “Caos Calmo” é o fato de ele ser estrelado por Nanni Moretti que, sem dúvida, é o melhor cineasta surgido na Itália nos últimos 20 anos e que como ator também mostra um inegável talento.

O filme de Grimaldi aborda as transformações na vida de um homem após o choque de perder a mulher em um acidente. É interessante traçar um paralelo entre “Caos Calmo” e “O Quarto do Filho” (dirigido e estrelado por Moretti em 2001), longa em que a morte acidental de um adolescente é trabalhada por meio da dor e do trauma que a tragédia provoca em sua família. Enquanto “O Quarto do Filho” é uma das mais belas abordagens sobre a perda já vistas no cinema, “Caos Calmo” é mais sobre o processo da elaboração do luto. Desde já é fundamental esclarecer que esse paralelo é traçado por motivos temáticos, já que o filme de Moretti é muito superior.

Grimaldi tem um de seus principais méritos na forma com que aborda o dolorido processo pelo qual passa seu protagonista. O cineasta evita sentimentalismos, expõe as emoções de forma sólida e direta e com isso trabalha a profundidade emocional de seu personagem com mais competência. Essa tarefa fica muito mais fácil quando se tem um ator como Moretti, cuja simples presença enche a tela com fortes cargas de um humanismo sincero, não piegas ou forçado como é tão comum no cinema.

O que vemos em “Caos Calmo” é um homem que perde totalmente suas referências, seu rumo, e fica sem saber para onde ir ou mesmo o que fazer. A dor chega a ameaçar sua própria subjetividade, mas é nesse momento que a capacidade de superação e a importância de se elaborar o luto entram em cena. Em um primeiro momento, Pietro (personagem de Moretti) se fecha em seu relacionamento com a filha e a troca de carinho e afeto com a criança passam a ser um mecanismo de proteção para a dor. O filme aborda como as lembranças, a própria memória em si, pode ser o estopim para o sofrimento intenso. Para evitar esse movimento, Pietro resolve abandonar sua rotina, trocando-a por outra, em que rompe com todas as suas obrigações e passa a viver seus dias em uma praça, em frente à escola da filha. Este novo cenário torna-se um abrigo para ele, que começa naturalmente a desenvolver novos relacionamentos com as pessoas que trabalham ou passam diariamente pela praça.

As coisas simples e até banais do cotidiano ganham uma importância extra para Pietro e servem de ferramenta para que ele siga em frente. Mas nessa busca por equilíbrio, por uma maneira de suportar a dor, Pietro desenvolve um processo interno que, embora faça com que ele se adapte à sua nova vida, é frágil e acaba por expor sua própria fragilidade. Vemos um homem andando em cima da corda bamba e que a qualquer momento pode cair. Ele passa a questionar sua postura em relação ao processo de luto e tem de lidar com um crescente sentimento de culpa por suas possíveis falhas durante seu casamento.

Ao longo de tudo o que passa em seu luto, Pietro se relaciona constantemente com outros personagens importantes de sua vida; de familiares e amigos a colegas de trabalho, que passam a freqüentar “sua praça”. Grimaldi usa essas relações no longa e aproveita para enfocar, em segundo plano, as emoções e sentimentos desses personagens secundários e o quanto isso afeta e interage com o que próprio protagonista sente e vive. A cena de sexo na parte final do filme (seca e visceral) é um bom exemplo para ilustrar como a interação de Pietro com os que o cercam tem papel fundamental em seu luto e pode ser vista como um de seus primeiros momentos de libertação.

No fim de “Caos Calmo” Grimaldi flerta com o sentimentalismo e com o piegas (deslizes que comete também em outras passagens do longa), mas consegue marcar de forma competente o final do ciclo da elaboração e vivência do luto de Pietro. Um bom filme que ganha muitos pontos extras pela sempre iluminada presença de Nanni Moretti, que mesmo não assinando a direção é sempre um motivo a mais para se ir ao cinema.

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