EROS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA, Itália, Hong Kong, China, França, Inglaterra
Direção: Steven Soderbergh, Wong Kar-Wai, Michelangelo Antonioni
Elenco: Gong Li, Chang Chen, Ti Fung, Luk Auntie, Zhou Jianjun, Robert Downey Jr., Alan Arkin, Ele Keats, Christopher Buchholz, Regina Nemni, Luisa Ranieri
Duração: 104
Estréia: 07/10/2005
Ano: 2004


Faltou Viagra ao ménage à trois


Autor: Érico Fuks

O amor está em jogo, e não é num campo de beisebol. A arena, neste caso, é um tablado muito mais violento e esburacado: a mente do ser humano.

Em época de atentados, guerras e uma sociedade paranóica, trazer à luz um sketch cênico lúdico faz bem. “Eros” não deixa de ser uma retomada neo-hippie, ideológica e estética, em que se abstêm os interesses da humanidade no campo materialista e coloca em questão o contato do indivíduo consigo mesmo, principalmente suas fraquezas e frustrações. Poderia se pensar que é um pedido de trégua ao “11 de Setembro” (o filme), não exatamente um acordo de paz. “Faça amor, não faça guerra” seria o lema desse novo tratado cinematográfico. Embora frontalmente distante dos parâmetros do Al Kaeda e das conseqüências do desabamento das Torres Gêmeas, “Eros” mantém a proposta de tentar enxergar um tema único e ao mesmo tempo complexo debaixo de seus diversos ângulos e reflexos. Poderia render um trabalho não rico, mas milionário em sua abordagem, devido à quase infinidade de possibilidades e parâmetros. Mas não. Do ponto de vista teórico e bibliográfico, infelizmente mantém-se na superfície epidérmica do entendimento das relações humanas. Diferentemente do comparado, falta a “Eros” um projeto, uma linha de trabalho, um fio condutor que aproxime os fragmentos mesmo que através de suas divergências e idiossincrasias. Nesse caso, o “vale-tudo” se perdeu nas entranhas de sua própria profundidade. Onde poderia haver concisão, houve dispersão. Cada um foi prum lado, não para exibir suas diferenças étnicas, culturais, ideológicas e autorais, mas porque cada um teve a liberdade de ir pro lado que fosse, sem a obrigação de voltar ao ponto de partida. As histórias não se tocam, não há um diálogo interno entre cada um de seus versículos. O que se exibe não é um libelo artístico, mas tão somente um certificado de realização. A ousadia das intenções, muito boas por sinal, rendeu como aproveitamento no máximo a chance de divulgar as assinaturas chiques e famosas dos autores desses três quadros bonitinhos porém ordinários.

Ao que tudo indica, trata-se de um filme que fala sobre o amor e suas divagações. Desejo, pecado, delírios, prazeres proibidos, tudo está lá, belo e formoso. Até demais. A incomunicabilidade e a intolerância do ser humano, idem. Enfim, a trilogia díspar segue sua cartilha. Com sua invocação ao deus mitológico, é de se supor que toca de leve os ramos da psiquiatria freudiana e jungiana. É a simbologia clássica que serve de paradigma para os dilemas ancestrais do indivíduo e da mente humana. E, nesse aspecto, gol para o filme, que traz à tona o universo onírico confuso e associativo das ciências biológicas abordadas.

A primeira fração, do semi-centenário Michelangelo Antonioni, é a mais retrô. “O Perigoso Encadeamento das Coisas” coloca um casal bem de vida que não tem mais o que dizer um para o outro. Nem a casa com piscina e o carro esportivo são capazes de suprir as necessidades existenciais dos pombinhos em crise. Discursos anacrônicos sobre a infelicidade, jogados na boca dos personagens, mostram o quanto o velhinho diretor italiano envelheceu mal. Essa tentativa libertária datada só faz causar contraste ao ambiente límpido e bucólico, por si só desprovido de interpretações. Fotolegendagem desnecessária. Vivendo um impasse e personificando esse escapismo naturista, o marido passa uma noite com uma mulher mais jovem, mas também fica insatisfeito com o adultério. Esse elo das coisas é uma versão renomeada do declínio do império italiano, tão pseudo-intelectual quanto o original canadense. O diretor não tem pudor nenhum em dar um zoom na câmera sobre um quadro nessa casa de campo, mostrando através de imagens o repertório cultural erudito e elitista dessa sociedade que se alimenta das artes mas não sabe o que fazer com ela.

Já “Equilíbrio”, do norte-americano Steven Soderbergh, é o mais solto e desprovido de rancores. Dá a impressão de tirar um grande sarro dessa ladainha comportamental. Tautológico até a medula, narra os delírios de um publicitário estressado dos anos 50, que sofre com uma série de sonhos eróticos. Ao se consultar com seu psiquiatra, ele descreve uma mulher com quem sonhou e que acredita conhecer, mas, quando acorda, não consegue se lembrar quem é ela. É um curta-metragem dialeticamente engraçado e monótono, que mantém o preto-e-branco dos projetos mais autorais do diretor. Viril por ser inescrupuloso, enfadonho por seu autocircundamento.

“A Mão”, do chinês Wong Kar-Wai, é uma cópia esmaecida em baixa definição de seu longa de sucesso “Amor à Flor da Pele”. Um jovem alfaiate é apaixonado por uma bela cortesã de Hong Kong, mas nunca teve seu amor retribuído. Durante anos, ele costurou roupas que ela vestiu para se encontrar com outros homens. Com o passar do tempo, a cortesã perde tudo, enquanto o alfaiate cresce em sua profissão. Todas as nuances de um amor proibido estão novamente aqui. Enquadramentos obtusos, saturação cromática de um ambiente frio e inóspito, valorização da indumentária para cobrir os desejos profundos do casal, idem idem. Há sim uma riqueza estética, inversamente proporcional à temperatura dos diálogos. O esmero em traduzir o belo é tão intenso, que quase não se enxerga mais o pulso dos protagonistas. São criaturas pálidas, bibelôs costurados não à mão; à máquina.

Para embalar essa tríade de sushi de exposição sem frescor, nada mais adequado que jogar um Caetano Veloso prestando uma homenagem, em seu caetanês afetado, ao mestre redivivo Antonioni com uma música homônima. Ambos se merecem. O filme tenta traduzir as inflexões amorosas percorrendo zonas erógenas, mas não chega nem perto do ponto G da questão. “Eros” é um filme onanista, que clama a supremacia da mitologia mas não sai de seus aposentos de butique. É capcioso achar que se trata de uma obra incomodada com seu mundo. O trio de peso mais repete do que decifra. Amor erótico é bem maior e mais vivo que isso.

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