FAY GRIM:


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Original: Fay Grim
País: EUA/Alemanha
Direção: Hal Hartley
Elenco: Parker Posey, D.J. Mendel, Liam Aiken, Megan Gay, Jasmin Tabatabai, Chuck Montgomery
Duração: 118 min.
Estréia: 26/09/2008
Ano: 2006


Fay Grim ou como usá-lo (o filme) para servir de exemplo da prepotência que não deveríamos ter


Autor: Cid Nader

Harl Hartley tem seu nome marcado entre os freqüentadores um pouco mais antigos da Mostra Internacional de São Paulo. Junto com Jim Jarmusch, representou para os mais cinéfilos daqui - menos exigentes quanto a elocubrações críticas, mas ansiosos por novidades, pelo garimpo de obras "à parte" - representou o que entendíamos por movimento de cineastas e filmes independentes, num país (EUA, obviamente) que é mais reconhecido mundo afora como detentor dos conhecimentos e da máquina de fazer dinheiro que a arte pode representar. Com o passar dos tempos, com o avançar na tentativa de compreender o cinema um pouco mais "academicamente", digamos assim, fui notando que comparar Jarmusch a Hartley - utilizando os motivos citados acima como razão - era um equívoco patético, já que Jim representou acima de tudo uma guinada estética no modo de pensar cinema, enquanto Harl fez, dessa sua parte como representante dessa tal "independência", uma mistura de repetições de cacoetes e modismos engraçados, maneirismos de tribos trazidos às telas, construindo uma obra perfeitamente propensa a cair na armadilha da "data". Por conta de um certo receio em ver confirmado que suas obras poderiam estar (mal) datadas, recusei sistematicamente revisitas aos filmes dele aos quais tive a oportunidade de conhecer anos atrás: atitude covarde, confesso, que não tiraria pedaço, e que só me faria mais digno num possível momento de "ataque" à sua obra - já respaldado pelo acúmulo de "sabedoria" que imaginei ter acumulado.

Mas, como sou turrão, porém não uma mula, resolvi que teria de assistir a "Fay Grim" - com intuitos implícitos talvez não dos mais nobres. Fiz. E qual não foi minha surpresa perceber que um Harl Hartley se repetindo - e todos seus trejeitos também - se configurou desavergonhadamente "bom" na tela à minha frente. Piadas e sacadas espertas, modernas, perspicazes, rápidas, repetidas e encenadas por tipos que pareciam ressuscitados de sua cinematografia "noventista". Jeito "engraçadinho" de empunhar a câmera enviesadamente, com resultado nada interessante e bastante questionável do ponto de vista estético/formalista. Roteiro hiper-bem elaborado, que se construía aos poucos, aproveitando fatores surpresas criados sob medida, e causando uma interessante sensação do tipo: "isso é interessante mesmo". Enfim, um diretor redivivo, sem tirar nem pôr.

Mas, surpresa maior: a idéia acovardadamente guardada de que iria me decepcionar se revisse obras da época, e de que as perceberia insuportavelmente datadas, se configurou realmente através desse trabalho tão mais recente, mas a minha percepção sobre o assunto ganhou outra dimensão. Harl Hartley continua fiel àquele seu estilo, ma vê-lo novamente executando-o tirou um peso de meus ombros. Não é ruim o que se constata quando se tem coragem de fazê-lo. O cinema dele talvez deva ser mesmo "bem" inscrito como representante de um momento. Talvez não com a pujança de um Jim Jarmusch, certo, mas com um estilo que merece consideração. Ficou datado sim, mas, agora, percebi que é uma "datação" que regenera a memória, que foi concebida ou completada com símbolos inequívocos e maneiristas sim, mas que tem muito da simbologia do "Cinema" em seu interior. O diretor usou boas técnicas de cinema para concretizar esse trabalho. E elas estão lá, ostensivamente - e isso é ponto para lá de positivo -: o tom de comédia no início, tem a perceptível intenção de angariar o espectador para si; feito isso, pode-se jogá-lo definitivamente para a qualidade de continuação de obra anterior, "As Confissões de Henry Fool" (1997), resgatando seus personagens e suas histórias, e fazendo-o a ponto de ser compreendido por quem não teve a oportunidade de ver a obra primeira (ponto para Hartley); prosseguindo no bom modo de exemplificar a confecção, o roteiro e o desenvolvimento narrativo ganharam potência quando modernizaram o tema anterior, apoderando-se de situações totalmente recentes e inexistentes à época do primeiro, modificando o ritmo de filme para fazer rir, e assumindo um tom bastante mais solene e dramático.

Resumindo ao máximo: Harl Hartley demonstra aqui que conhece seu ofício. Não se envergonha de seus momentos anteriores - porque acredita em sua obra -, e consegue adaptá-los à atualidade, como bom exemplo de dinâmica de um realizador.

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